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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Kant e Schiller, estética e o belo

Kant
Kant dizia que o Belo é o que através da faculdade da imaginação apresenta um certo sentimento em relação a um objeto. O Belo é uma referência estética e subjetiva. Estético[1] porque tem como conseqüência em um livre jogo do intelecto e da imaginação. Este senso estético não tem função de conceituar o que é Belo e o que não é Belo. Se não há uma fundamentação, conceito, então ele se apresenta livremente conforme a capacidade de cada indivíduo em absorver a informação subjetiva e dentro desta subjetividade exteriorizar a sua constatação sobre o Belo, mas não terá justificativa para aquilo que acabou de concluir.
Percebemos que o Belo “foge” da conceitualização que somos acostumados a introduzir e encaminhar para um dado procedimento que seria causado pelo próprio intelecto. As faculdades de distinção e ajuizamento não irão contribuir com um conhecimento como esperado quando através delas temos a “sensações” do que é aprazível ou não é aprazível. Por não gerar um conhecimento, não há como conceituá-lo e dizer por que determino tal objeto como Belo.
O juízo de gosto se manifesta em todas pessoas a partir do recebimento da informação do objeto, isto é, a uma concordância entre aqueles que conhecerem o objeto haverá uma universalidade em relação a beleza constatada sobre o objeto.
O juízo de gosto proferido sobre um tal objeto será universalizado, mas não terá uma conceitualização dele, o prazer que ele proporciona é livre de todo interesse e ainda a uma conformidade de fins sem fim.

De tudo isso jorra a primeira definição do belo, e, portanto, a solução da primeira parte do problema relativo, nos seguintes termos: - belo é o que agrada sem interesse – e para melhor esclarecer o valor desta proposição Kant efetua uma indagação sobre as várias modalidades nas quais um prazer pode manifestar-se ligado ao interesse, modalidade que ele reduz às três seguintes: I) ao prazer provocado pelo agradável; II) ao prazer provocado pelo útil; III) ao prazer provocado pelo bom.[2]

Há algumas diferenciações que podem demonstrar uma deliberação sobre um objeto embora aparentemente se possa negá-la.

“agradável é o que apraz aos sentidos na sensação”.

Ao declarar sobre um objeto que este me parece agradável, este então manifesta não mais somente a contemplação do Belo, mas suscita um interesse e ou ainda um desejo pelo objeto em que o indivíduo esta a contemplar.
O agradável apraz e deleita.
No caso do Bom, também há um desligamento daquilo que necessita para que o Belo se mantenha liberto de definições, pois a partir do momento que estamos buscando no Belo uma bondade ou uma não–bondade, estamos procurando uma definição, porque ao procurar essa bondade, encontramos a necessidade de questionar o porquê desta bondade, se é bom é porque há uma definição do porque é bom.
Se bom, então útil, ou ainda, se bom, então bom em si.
Tanto o bom como o agradável, estão ligados ao interesse e a faculdade de apetição ao o objeto.
O juízo de gosto sendo apenas contemplativo, não proporcionando conhecimento e não procurando uma conceitualização, então se diferencia do agradável que é de deleite, do bom que é estimado, pois o Belo somente apraz.


Pode-se dizer que, entre todos estes modos de complacência, única e exclusivamente o do gosto pelo Belo é uma complacência desinteressada e livre; pois nenhum interesse, quer o dos sentidos, quer o da razão, arranca aplauso.[3]

Não havendo inclinação do sujeito pelo objeto, muito menos deliberação, mantém o Belo sem uma definição. Apenas estará o juízo de gosto “dentro” de uma universalidade subjetiva.
Sobre o agradável, diz Kant:

“Funda sobre um sentimento privado e mediante o qual ele diz de um objeto que ele lhe apraz, limita-se também simplesmente a sua pessoa.”[4]

Pode-se dizer, agradável para minha pessoa.
Continuando...

“Acerca do agradável vale o principio: cada um tem seu próprio gosto (dos sentidos).”[5]

Já do Belo pode entender que Kant permite que se possa entender que, não pode se “denominar” Belo o que apraz somente a ele, isso mostra o contrário do agradável.
(Não poderá ser Belo para mim).
Os outros podem não ter a mesmo juízo de complacência.
Julgar a beleza é como dizer que “isto é Belo para todos”, isto é universalmente aceito como Belo, embora se mantenha subjetivo para cada um, pois cada indivíduo chegou a essa conclusão sozinho.
E ainda é como se a beleza fosse a propriedade de cada coisa, cada objeto.
Quando digo:
“Isto é Belo”.
É exigido que todos falem o mesmo do que esta se relacionando, porque não há como exprimir um gosto particularizando, seria o mesmo que afirmar que não existe gosto algum.
O Bom é por fim:

Com respeito ao bom, os juízos na verdade também reivindicam, com razão, validade para qualquer um; todavia, o bom é representado somente por um conceito como objeto de uma complacência universal, o que não é o caso nem do agradável nem do belo. [6]

Os objetos sendo julgados através de uma conceitualização faz perder toda a representação de beleza, essa necessidade de uma universalidade no juízo de gosto é apenas uma idéia[7] de julgar sem conceituar é apenas uma idéia ou então seria objetiva e não mais subjetiva como é sua “característica” . E por isso, que podemos dizer que o ajuizamento do objeto antecede o sentimento de prazer, por que é necessário que se tenha a idéia do objeto para depois distinguir qual tipo de sensação ou outra manifestação esse objeto afetara sobre o indivíduo.

Este ajuizamento simplesmente subjetivo (estético) do objeto ou da representação, pela qual ele é dado, precede, pois o prazer no mesmo objeto e é o fundamento deste prazer na harmonia das faculdades de conhecimento; mas esta validade subjetiva universal da complacência, que ligamos à representação do objeto que denominamos belo, funda-se unicamente sobre aquela universalidade das condições subjetivas do ajuizamento dos objetos.[8]

O juízo de gosto, como já havíamos visto, é livre de interesse e tem a conformidade de fins sem fim, o que isto quer dizer é que esse jogo entre intelecto e imaginação é o próprio fim mas sem um fim com o sentido de finalidade que temos, como um fim utilitário.

A conformidade a fins pode, pois, ser sem fim, na medida em que não pomos as causas desta forma em uma vontade, e contudo somente podemos tornar compreensível a nos a explicação de sua possibilidade enquanto a deduzimos de uma vontade.[9]


Como ser imparcial perante um objeto e contemplá-lo sem usar as outras faculdades que estão no indivíduo? Pois afinal todo o conhecimento que temos nos leva a outros estágios. Mas Kant considera esse tipo gosto apenas vicioso com base empírica, que está vinculado a comoções e atrativos é um gosto ainda bárbaro e não um juízo-de-gosto puro. Esse juízo-de-gosto puro não é para ser denominado como aquele que é o perfeito juízo de gosto, pois também estaríamos conceituando o juízo de gosto. Para dizer que um juízo de gosto faz parte de uma beleza contida na perfeição, ela entrará na no parâmetro da beleza condicionada[10] que Kant denomina como beleza aderente, isto é, diferente da beleza livre, que é aquela que não possui um conceito que pertence a juízo-de-gosto puro.

“Beleza é a forma da conformidade a fins de um objeto, na medida em que é percebida nele sem representação de um fim.”[11]

O agradável produz prazer e o belo tendo uma necessidade à complacência mas essa necessidade é um modo de agir tendo universalidade e subjetividade, essa universalidade é exemplar, diz kant. O ajuizamento do belo, apresenta-se universalmente para que todos aqueles que tem a interação sujeito-objeto irão ter a mesma opinião.
Há uma necessidade da universalidade tanto no juízo como no conhecimento para que tenha uma concordância entraria no plano da relatividade ou ainda do ceticismo.
Essa concordância se trata de um dever e não apenas uma possibilidade.

“Belo é o que é conhecido sem conceito como de uma complacência necessária.”[12]




















Schiller


Schiller vê a estética de Kant com um tanto de receio, afinal ele passa por duas fases na estética kantiana, na primeira como um leitor e pode-se dizer quase como um discípulo e depois como um anti-kantiano. A partir de suas cartas[13], ele se torna um crítico da teoria de Kant, embora com inspiração no próprio. Pois Schiller continua a concordar com o ligação entre o belo e a moralidade sugerida por Kant.
Schiller adere plenamente a esta concepção, mas procura dar-lhe um sentido concreto.[...]defende a idéia de que sua arte e arte em geral não são inúteis. Elas podem servir aos desígnios da humanidade, isto é, uma vida harmoniosa e livre, de acordo, ao mesmo tempo, com a natureza e com a virtude.[14]

O que é pretendido na diferenciação da estética abordada é que as exigências sobre o indivíduo para estabelecer a estética, deve ser acessada pela coletividade.
Além do Belo ser visto como aquele que me traz prazer, mas não poderá me despertar este sentimento de prazer, e isto faz que a teoria de Kant seja investigada por Schiller que não vê uma unidade nesse julgamento, pois ao mesmo tempo que apraz não posso ter a consciência disto pois poderá “macular” minha percepção, esta não será mais uma definição pura do Belo.
Schiller quer entender o porque que objetos, por nós, denominados Belos, causam tal efeito na interpretação do homem, ele não acredita simplesmente, que haverá apenas algumas características do objeto belo, pela qual quando é percebido, logo se pode dizer “este objeto é belo por que possui tal e tal características”, ele acredita em certo efeito causado no ser humano, e este, não por definições mas por outras razões irá definir “este objeto é belo”, “isto é belo”.
Kant falava de faculdades, de entendimento, de imaginação e de razão. Quanto a Schiller, exprime-se ele em termos de instintos próprios da natureza humana; por que a beleza, a harmonia da forma e da matéria agrada? Porque engendra a harmonia dos dois aspectos da natureza humana, a razão e sensibilidade. Porque ela é um apelo à conciliação entre o instinto[15] formal (formtrieb) e o instinto[16] sensível (sinnlicher trieb)[17]

Schiller argumenta que os impulsos naturais do homem estimulados pelo instinto e pela busca do prazer poderá desviar a ação do homem e fazer do uso estético mero modo de satisfazer suas tendências, que são naturais do ser humano.
Embora seja visto por ele um ponto que enriquece o uso estético, porque ela estabelece um melhor desenvolvimento da razão, por isso todo o processo de educação estética é visto por Schiller como um impulsor para o processo intelectual e racional, logo, um processo necessário para a moralização, além de ele perceber que esta mesma estética pode mudar a visão do homem e melhorá-lo em relação ao seu semelhante.












CONCLUSÃO


O belo na Crítica Da Faculdade Do Juízo apresenta-se como algo que apraz sem interesse, que o sujeito não poderá encontrar algo que lhe desperte a sua atenção, seja desejável.
Apraz universalmente, todo o sujeito terá a mesma opinião, mas não a uma conceitualização, não será especificado o porquê que é belo.
A finalidade sem fim, um juízo que não apresenta uma finalidade além do belo ser apenas belo, um fim em si mesmo.
E finalmente uma satisfação que é necessária, não há outra maneira de se dizer o belo direcionado a outros princípios ou tentando incluí-lo em algo fora de seu próprio sentido sem conceito.[18]
Kant não procura uma perfeição no belo, pois seria como defini-lo, dizer o que é belo. Ele esta apenas dando a permitindo a liberdade da simples contemplação sem objetivo, sem interesse, sem finalidade, no entanto desta forma esta se seguindo do belo simplesmente por ser belo, não porque trará benefícios, ou porque irá formar opiniões, o belo quando usado desta forma indevida passa não ser mais o belo e sim um caminho para o imaturidade conceitual, onde todos poderiam usá-lo para influenciar. Assim como o belo era comparado ao bem, ao perfeito e outras teorias que seguiram durante séculos.











BIBLIOGRAFIA
CAYGILL, Haward. Dicionário Kant. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
COBRA, Rubem Queiroz . Temas de Filosofia. 2001. Disponível em:.Acesso em: 09 Out. 2006.
GALEFFI, Romano. A Filosofia de Immanuel Kant. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986
KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do Juízo. Rio de Janeiro: Forense, 2005
PARISI, Mário. COTRIM, Gilberto Vieira. TDF, Trabalho dirigido de filosofia: 2º grau. São Paulo: Saraiva, 1977
JIMENEZ, Marc. O que é estética. Tradução: Fulvio M.L. Moreto. São Leopoldo: Unisinos, 1999.
BAYER, Raymond. História da estética. Tradução: José Saramago. Lisboa: Editorial Estampa, 1978.
[1] O sentimento do sujeito, e não o conceito do objeto. CFJ.p.77

[2] Galeffi. A filosofia de Immanuel Kant.p.297

[3] CFJ.p.55
[4] CFJ.p56
[5] CFJ.p.57

[6] CFJ.p.58
[7] mas não a idéia do conceito de razão.
[8] CFJ.p62
[9] CFJ.p,.65

[10] (quando comparamos a beleza deste com aquele e buscamos uma perfeição) CFJ.p76
[11] CFJ.p.82
[12] CFJ.p.86
[13] 27 Cartas sobre a educação estética do homem.
[14] O que é estética. Marc Jimenez. P.157
[15] O autor de O que é estética. Sugere ler-se como pulsão ou impulso dinâmico.
[16] O autor de O que é estética. Sugere ler-se como pulsão ou impulso dinâmico.
[17] O que é estética. Marc Jimenez. P.158

[18] Segue ordem como no Dicionário de Kant.p.46

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