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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

AS TRÊS TRANSMUTAÇÕES DO ESPÍRITO - NIETZSCHE



INTRODUÇÃO

Nietzsche fala na primeira parte do livro “Assim falou Zaratustra” nas Três Transmutações do espírito, isto é, metamorfoses, tratando-as como estágios para que o espírito possa transformar-se em dono de si, dono de sua própria vontade, onde o espírito se desfaz de tudo que é dogma e começa algo novo, diferente, não mais com a visão comum e sim uma nova concepção de cosmovisão, além daquela onde eram tratadas universalmente. É morrer para um mundo e nascer para outro.
Assim se faz possível tratar de conduzir o assunto sobre a educação e o papel do professor de Filosofia, organizando sistematicamente os três estágios de “transformação” do professor, isto é, como o professor na tentativa de apresentar a filosofia acaba se deparando com o movimento semelhante ao que Nietzsche descreve no livro “Assim falou Zaratustra” na passagem “As três transmutações do espirito”.
Mas o que Nietzsche pretende tratar realmente com essa analogia da transmutação? O que ele identifica nestes estágios? Apenas o homem e o seu interior buscando uma libertação? Ou também a modificação do mundo a sua volta? Ou ainda uma identificação com o conhecimento adquirido por Nietzsche em seus estudos ao longo dos anos onde teve o contato com vários textos filosóficos, textos históricos, enfim textos sobre a humanidade e sua evolução?
E observando a tudo isto, o que se vê de semelhante ao professor de Filosofia e sua construção de transmissão de conhecimento a partir do texto “Formação do professor de filosofia e As três metamorfoses de Nietzsche” de Silvio Gallo.
A uma preocupação de Silvio Gallo com o modo que é pretendido ensinar filosofia nas escolas, pois o professor passa de mero portador de respostas para aquele que pretende desenvolver o conteúdo de filosofia, o professor se torna totalmente distinto do filósofo, há uma transformação do professor de filosofia assim como as transmutações em que Nietzsche sugeria em Zaratustra? É necessária essa transformação? É o que se pode observar no texto comparativo que Silvio Gallo é que na analogia do texto há uma adequação as modificações que o professor passa durante sua experiência de classe.


As três transmutações

A transmutação do espírito[1] se dá em três etapas:
· O espírito se transforma em camelo[2] que tem a imagem da obediência;
· De camelo se transforma em leão[3], a imagem da libertação;
· E de leão para última etapa, que é a criança[4], a imagem da inocência.
A partir desta três etapas, nota-se a existência de:
Um professor-camelo;
Um professor-leão;
E a necessidade de um professor-criança.
Há interpretações[5] sobre estas três passagens das metamorfoses, como correspondentes a história do pensamento filosófico, onde encontra-se nas formas: “o camelo corresponde-se à Sócrates e Platão - heteronomia; o leão como Descartes e Kant – autonomia legisladora; e, por fim, o próprio Friedrich Nietzsche como a criança – para além dessas duas perspectivas.”[6]

O camelo

O professor de Filosofia é visto como o camelo: aquele capaz de tudo carregar, de aceitar o pesos de dever, de aceitar o “peso da sabedoria”. O professor-camelo é aquele que tudo sabe, que tudo explica, que a ninguém emancipa, nem a si mesmo.[7]

O espírito transformado em camelo, “símbolo do conformismo e da resignação”[8], procura pelo fardo mais pesado, opressor e angustiante. Ele fica feliz com a boa carga, acredita que com a carga mais pesada se sentirá forte por poder suportá-la, ele não só recebe esta carga, como a deseja, o espírito do camelo solicita este maior fardo ao ajoelhar-se para ser melhor acomodado o peso a carregar. Há um questionamento se não deve deixar o orgulho padecer, zombar da própria sensatez, deixar de lado algo que desejou quando conquistou, “ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade”[9], e ao estar doente procurar aqueles que não irão ouvir seus lamentos, ir aos piores lugares da alma se for dessa maneira o encontro da verdade, ou ainda amar aos inimigos ou remoer lembranças que nos fazem mal.
Nietzsche o leria a partir de uma interpretação de sua condição fisiológica que o obriga a ajoelhar-se para poder se situar no mundo. Pela imposição dessa perspectiva o homem, enquanto vontade de potência, manifestaria o ser mais que o caracteriza, ainda que mediante a submissão àquilo que ele mesmo estabelece. Por isso Zaratustra, em seu discurso, refere-se à atitude de baixar-se para estancar a altivez, a de desviar-se da imposição de sua própria perspectiva quando esta já está sedimentada, a de busca incessante do inatingível, a de se submeter a todo sofrimento e contratempo como necessidade de carga manifesta no ardor à verdade e, por fim, a de ser benevolente e compassivo.[10]

O camelo carrega todos os deveres do mundo, ele é aquele que faz tudo conforme as regras, as normas que são impostas desde seu nascimento, não cria algo diferente pois não acredita nesta necessidade, e as carrega em direção ao deserto, ao nada, pois é uma penitência sem garantias de que chegará no destino desejado, mas vê isso com um grande aprendizado.
O “professor-camelo” descrito no texto apresenta-se como um professor que acredita tudo saber e que não permite a libertação de seus alunos e nem sua própria libertação, o que parece condizente com a descrição do camelo de Nietzsche nesta passagem, pois o espírito transformado em “camelo” é descrito como aquele que tudo aceita, logo não permite-se pensar algo novo, abrir-se para novas pesquisas, segue aquilo que aprendeu e não vê novas possibilidades não permite-se atualizar o conteúdo e assim o faz com seus alunos, como não reconhece novas possibilidades de pensamento define tudo o que ensina como o “certo” e o restante que desconhece, o apresenta como contraditório ou ainda sem alguma importância para que possa ser estudado.

O leão

Mas no seu deserto, o espírito do camelo poderá encontrar sua própria liberdade. E aqui, nesse deserto[11], o camelo se transforma em leão que quer ser rei do seu próprio deserto, que não quer imposição, quer ser senhor de sua libertação, mas encontra-se com o dragão, que carrega consigo valores milenares e não deseja ver o espírito transformado, pois quer impor ainda o “tu deves” ao leão, pois o próprio dragão chama-se “Tu Deves”, mas o espírito leão que já está cansado do tempo em que era camelo, que respeitava e obedecia humildemente, agora não quer mais esses valores antigos que o dragão traz consigo e embora não possa criar os novos valores, o leão diz: “eu quero”, eu quero diz o espírito do leão, tentando deixar de lado todos os valores que o dragão traz e quer lhe impor.

O professor-leão é aquele que tem a coragem para dizer não, para negar o instituído e as instituições, para afirmar sua própria liberdade. Mas aonde isso leva? A potência do leão só faz sentido se a negação levá-lo ao devir-criança.[12]

O “professor-leão” pode ser comparado àquele que não tem medo de dar sua opinião, não teme imposições, e é capaz de dizer não quando acredita em suas convicções. Através destas primeiras atitudes do professor, ele começa a oferecer uma segunda opção para si e para os alunos, há uma demonstração de descontentamento com tudo o que lhe é imposto fazendo com que ele comece a chegar em um novo patamar, uma fuga da estagnação.
O leão é aquele que pode resistir a essa imposição, ele já é aquele que pode libertar-se dos antigos valores, o leão é, pois aquele que tem a força para criar liberdade[13].

A criança

“O professor-criança é o mestre ignorante, aquele que pode instaurar um sempre novo começo, fazendo da filosofia uma experiência viva, criativa.”[14]

O leão dirá “não” perante o dever. E o leão se transforma em criança.

“Dizei-me, porém, irmãos. Que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o leão que ataca se transforme em criança?”[15]

A criança é um novo começo, ela não tem dogmas a seguir, não possui lembranças que a torturem, é inocente não tendo e nem sentido culpa, é a chance de um recomeço livre de um passado opressivo e de batalhas como o do camelo e do leão.
O “professor-criança”, está liberto de todos o dogmas, ele sabe que não sabe de tudo, mas que é sempre possível aprender, que é sempre possível mudar e que não tem obrigação, comparando com a criança de Nietzsche, é um eterno desconhecer com um eterno aprender e reaprender.

“É a criança, enquanto assimilação do vir-a-ser, que permite o advento do além-do-homem; entretanto antecede ao criar pelo simples prazer de fazê-lo à crença na determinação do querer enquanto outra interpretação de mundo, conhecimento e ação.”[16]

É uma nova chance, para um novo ser humano.

“E assim falava Zaratustra”[17]









CONCLUSÃO

As metamorfoses apresentadas e idealizadas por Nietzsche, de uma maneira diferente, com uma proposta lingüística[18], como se fossem parábolas da Bíblia, talvez tenham a pretensão de passar também através dessa analogia onde os animais lutam por uma nova condição ao se transformarem.
Pois estes animais pertencendo a um só espírito, e por fim tornando-se criança, símbolo da inocência mas também da fragilidade, Nietzsche queira mostrar que por trás de certas fragilidades[19] pode haver grande força e posicionamento no meio em que se vive, que não basta ter força e vontade, mas sim capacidade de criar.
Na maioria das vezes professor passa por todas estas “fases” principalmente no processo de formação, onde a ideais, imaturidade, falta de compromisso, tudo isso acarreta em início maus professores não por querer, mas por assim aprenderem e talvez iludir-se em querer ser parecidos com alguns mestres que estiveram presentes em suas vidas, pois não podemos negar que são grandes influências. Além de tudo, veremos alguns exemplos que nunca mudarão e não é raro, estagnarão no “professor-camelo” por terem expectativas frustradas ou por estarem em profissão inadequada.





















Bibliografia

AZEREDO, Vania Dutra de (organizadora). Encontros Nietzsche. Ijuí: ed. Unijuí, 2003.
BARBOSA, F. Assis. Pereira, M. Cunha. Mini Dicionário Luft. São Paulo: Editora Ática, 1991.
MORA, José F. Dicionário da Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977.
NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falava Zaratustra. 2ª ed. São Paulo: Editora Escala.
REALE, Giovanni. História da Filosofia: Do Romantismo até nossos dias. São Paulo: Editora Paulus, 1991.
TREVISAM, Amarildo Luiz e ROSATO, Noeli Dutra. ORGANIZADORES. Filosofia E Educação: Confluências. Santa Maria: Facos – UFSM, 2005.
[1] Geist
[2] Kamele
[3] Löwe
[4] Kind
[5] Há outras interpretações discordantes.
[6] Texto de Vânia Dutra de Azeredo, “As transmutações do espírito”
[7] Filosofia e educação: Confluências. p.145

[8] Site. história – artigos – Nietzsche, a construção do Zaratustra.
[9] Livro – “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche. Editora escala
[10] Texto de Vânia Dutra de Azeredo, “As transmutações do espírito”

[11] “Se a terra é a imagem da dimensão em que se postulam sentidos, o deserto o é da recusa em estabelecê-los”. Texto de Vânia Dutra de Azeredo, “As transmutações do espírito”
[12] Filosofia e educação: Confluências. p.145

[13] Para novas criações.
[14] Filosofia e educação: Confluências. p.145
[15] Livro – “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche. Editora escala
[16] Texto de Vânia Dutra de Azeredo, “As transmutações do espírito”
[17] Livro – “Assim falava Zaratustra” de Nietzsche. Editora escala

[18] estilo.
[19] Como a sua própria, por ter passado a vida inteira tentando cuidar-se pois possuía uma saúde frágil.

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