CONTADOR DE VISITAS

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

SOBRE A ESSÊNCIA DA VERDADE EM HEIDEGGER-POR ÉRICA MACLEO






Introdução


O que é veremos no texto, a essência da verdade, não são as “verdades” que temos como verdade, aquelas supostas verdades que recebemos todos os dias desde o início de nosso entendimento, mas sim a verdade como um todo, a verdade nela mesma, como princípio e fim nela mesma. O questionar sobre “qual a possibilidade para falar das coisas?” E qual a possibilidade de o fato ser coerente com aquilo que se pensa do fato.
Ainda é introduzido no texto, a argumentação sobre o erro, qual é a importância , se houver, do erro na busca pela verdade? O erro faz com que se encontre argumentos para uma verdade coerente?
Heidegger usa expressões como liberdade, concordância, errância, para se aprofundar no objetivo de mostrar de que modo a essência da verdade pode estar estabelecida em normas completamente questionáveis.
Podemos usar esse texto para auxílio nas articulações proposicionais que são manifestadas em relação a verdade como fundamentação a discussões que necessitam de algo que se manifeste como “soluções” a dúvidas.

A verdade


Há questão “essência da verdade”, não é tratar de algo fora da realidade, porque se converteria na falta de fundamentação onde não se pode talvez encontrar a verdade da essência da verdade. Por isso Heidegger se propõe em tratar no sentido em que a verdade se agrega a realidade.
Ao tratar dessa questão, o bom senso, irá promover um questionamento sobre sua importância, pois não há como argumentar e manter argumentações sobre tal questão.
E o que pode manter o interesse e o debate sobre este assunto é apenas a própria filosofia, pois o senso comum não tem interesse na linguagem filosófica, apenas nas evidências.
“A filosofia, por sua vez, jamais pode refutar o senso comum porque este não tem ouvidos para sua linguagem”.
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Nos orientamos pelo senso comum no dia-a-dia, pois trabalhamos com o que nos parece mais evidente.
Preocupar-se com a verdade é talvez para alguns, o objetivo de encontrarmos nosso ponto de referência, o nosso lugar, saber o porquê de nossa existência, encontras para nossos questionamentos individuais e coletivos.
Enquanto desejamos a verdade real, ao mesmo tempo somos confundidos com a questão da essência da verdade. Porque a verdade real é a verdade, nada mais do que isso.
A verdade que não pode ser questionada tem de estar de acordo com aquilo que temos por autêntico, mas ser autêntico é nada mais do que possuir as propriedades que esperamos daquilo em que questionamos, é simplesmente ter a confirmação concreta daquilo que já temos idealizado, é responder o que já está respondido.
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Por exemplo: Qual a propriedade de uma caneta? O que esperamos dela? Se vejo algo que me proporcione a escrita, que contenha tinta, e que marque no papel todos os símbolos que desejo perpetuar por um bom tempo, logo denominarei como caneta. Essa é uma verdade por que está de acordo com o que eu conheço e com o que eu vejo.
Verdade também denominada como aquilo que está de acordo com algo que estamos analisando, esse “de acordo” deve estar em conformidade com a proposição
3 proposta.
“De acordo”, é estar conforme com o que se vê da coisa e ainda em conformidade com o que se diz da coisa – a definição que se tem (coisa e sua definição).
Logo a essência da verdade apresenta-se como a conformidade entre a adequação da coisa e o que se conhecesse da mesma. Só pode haver verdade de uma proposição se há verdade na coisa descrita.
O verdadeiro, seja uma coisa verdadeira ou uma proposição verdadeira, é aquilo que está de acordo, que concorda. Ser verdadeiro e verdade significam aqui: estar de acordo, e isto de duas maneiras: de um lado, a concordância entre uma coisa e o que dela previamente se presume, e , de outro lado, a conformidade entre o que é significado pela enunciação e a coisa.
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Concepções da essência são: verdade é a adequação da coisa com o conhecimento - veritas adaequatio rei et intellectus e verdade é adequação do conhecimento com a coisa - veritas est adaequatio intellectus ad rem.
A verdade como adequação da coisa com o conhecimento”, ainda não exprime o pensamento transcendental de Kant, e só torna possível a partir da essência humana enquanto subjetividade, segundo a qual “os objetos se conformam com o nosso conhecimento.
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Mas isso decorre dá fé cristã onde as coisas, como criaturas singulares correspondem à idéia pré-concebida pelo espírito de Deus
6. Concorda e se conformam com a idéia aceitando-o a como verdadeira.
Faculdade dada por Deus: Intelecto humano adequar-se à idéia. Ora, o intelecto somente é conforme com a idéia. A possibilidade da verdade do conhecimento humano se funda, se todo ente é “criado”, sobre o fato de a coisa e a proposição serem igualmente conformes com a idéia e serem, por isso, coordenados um ao outro a partir da unidade do plano da criação.
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Fato da coisa e a proposição (essência da verdade) tem que estar conforme com a idéia que se tem da coisa. Verdade é a concordância entre criador (ordem da criação = ordem do mundo) e criatura (coisa = conceito essencial é a sua verdade).
Ordenando os objetos pelo espírito
8 (razão), não mais da ordem teologicamente. Já a evidência pode demonstrar que a verdade também possui um contrário: não–verdade que é a inconformidade da coisa com o que se diz dela (proposição). Reduzindo a verdade da proposição a verdade da coisa, então o que resta investigar é a concordância.
A não-verdade original, isto é, o velamento do ente em sua totalidade, é mais antigo do que toda a revelação de tal ou tal ente. Pergunta Heidegger: “O que preserva o deixar -ser nesta relação com a dissimulação?”. O autor chama de mistério (Geheimnis) o velamento do ente como tal o que possibilita a relação da dissimulação com o deixar -ser (Seinlassen).
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Concordância para verdade


A enunciação pode ter concordância com a coisa, mas não quer dizer que é a coisa em si.10
A adequação não pode significar aqui um igualar-se material enter coisas desiguais. A essência da adequação se determina antes pela natureza da relação que reina entre a enunciação e a coisa. Enquanto esta “relação” permanecer indeterminada e infundada em sua essência, toda e qualquer discussão sobre a possibilidade ou impossibilidade sobre a natureza e o grau desta adequação, se desenvolve no vazio.
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A enunciação diz que é a coisa “exprime tal qual é, assim como é” e se apresenta e aquilo que está presente é o ente.
Comportamento (é toda relação de abertura para com algo) está aberto para o ente. A abertura que o homem tem com ente depende do ente e do seu comportamento, como se expõe e se expressa, como ele se apresenta se mostrando da maneira que ele automaticamente “entra” na enunciação.
Se dermos o exemplo seguinte: Temos a caneta, sabemos como é uma caneta. Quando a vemos dizemos: - É uma caneta. Mas se ela é de formato diferente, por exemplo, é um triângulo, com uma das pontas com uma caneta, e seu objetivo é ser caneta, mas ao olharmos não percebemos que é uma caneta, então não vamos denominá-lo como caneta, e sim como um triângulo, por que foi a primeira coisa que nos foi apresentada. Logo o ente não exprimiu assim como ele é.
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A enunciação é conforme a abertura para com algo (seu comportamento) que deve se guiar pela enunciação, pois é através dela que aquilo que ela quer apresentar se torna adequado para tal apresentação. Mas se abertura (onde o ente se torna suscetível e se expressa com é) já torna possível a conformidade da enunciação, então isso pode ser considerado “mais original como a essência da verdade”.
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Essa última conclusão faz com que a verdade vinda da enunciação seja incoerente porque a verdade original não tem seu princípio na proposição.
O autor coloca a seguinte questão: “qual é o fundamento da possibilidade intrínseca da abertura que mantém o comportamento e que se dá antecipadamente uma medida? É somente desta possibilidade intrínseca da abertura do comportamento que a conformidade da proposição recebe a aparência de realizar a essência da verdade.

Liberdade para verdade


A liberdade aparece para aprofunadar a reflexao juntamente com a verdade é buscando a problematizaçao da essencia do homem que está velada no ser-ai14.
A essência da verdade aparece como a liberdade aonde se fundamenta a conformidade porque é o “estar conforme” que permite através da liberdade aceitar ou escolher e vamos escolher o que está e se apresenta com mais conformidade. Mas isso não quer dizer que o homem estará responsável pela verdade e que com isso ele poderá decidir qual a sua verdade ele deve se basear no bom senso e com apresenta uma subjetividade da verdade.


A não-verdade para a verdade


A essência da verdade ao ser demonstrada como parte da liberdade do homem onde atua como responsável por encontrar a verdade demonstra que o homem por ser volúvel nos seus próprios preceitos não pode ser responsável pela fundamentação da verdade. O homem é volúvel por isso o seu bom senso também poderá sê-lo e em vez de dirigirmos-nos a verdade, iremos a não-verdade que é a inconformidade da coisa com aquilo que dizemos dela.
Relação da verdade com a conformidade e liberdade.
A liberdade é aqui para a verdade, algo necessário pois é através da liberdade que o homem consegue ser o que é. O homem é livre para ser sua própria verdade, a essência da verdade é a liberdade, passa a ser sua própria verdade.
“deixar-ser = o entregar-se ao ente”
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E essa verdade pode ser melhor denominada como aquilo que é desvelado (alétheia).
E a verdade não é uma proposição, mas aquilo que o homem passa a desvelar a partir de sua ek-sistencia, mas isso ele só pode através de sua liberdade, liberdade de ser historial.
“deixar-ser = liberdade;
verdade = liberdade em sua essência”
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Mas o homem ainda pode não deixar que ele seja aquilo que é, assim partindo da não-verdade, sendo um ser dissimulado, e não permitindo sua liberdade.
“a essência da verdade se desvelou como liberdade”
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A essência da verdade como liberdade mostra que o ente aparece desvelado enquanto o deixar-ser do ente também se predispõe em relação ao humor do mesmo que é o que permite ou não a revelação do ente em sua totalidade. O que o ente tem que manter é seu desvelamento, a partir que o ente mantém seu velamento a uma dissimulação, o que acarreta no não encontro da verdade, à não-verdade.


A dissimulação para a verdade


A dissimulação é aquilo que esta velado, mas o que está velado é mais comum e antigo que o próprio desvelamento do ente, a própria não-verdade (desacordo de um ente com sua essência). Se temos a não verdade então teremos a não - essência já que ela é essencialmente a parte do velamento. Mas talvez esse mistério da essência não seja tão importante ser desvelado.


A errância para a verdade


O homem só in-siste ao mesmo tempo em que ek-siste e cai na errância, somente por ek-sistir e in-sitir. É a errância que se opõe a essência da verdade, é ela que mantém o velamento sobre o mistério e sobre a essência da verdade e faz apenas conhecer a não - essência da verdade.
A errância ocupa no pensamento de Heidegger sobre a essência da verdade[...] O erro vai de um simples engano até o “desgarramento e o perder-se de nossas atitudes e nossas decisões essenciais”. A errância tem uma conotação ontológico -historial. Heidegger enfatiza a situação historial e existencial de errância que condiciona a humanidade e o ser-aí,[...] O desgarramento é o nível mais profundo e mais grave da errância que nos ameaça. Ele representa a situação de decaída e impotência que sempre envolve o homem e o ameaça historialmente. O desgarramento é conexo com o esquecimento do mistério. [...] Vemos deste modo que o caminhar historial do homem é essencialmente errante. Isto se torna compreensível pelo caráter ontológico in-sistente ek-sistente do homem.
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Como todos podem errar, diz Heidegger, o homem passa por esse processo do erro por diversas vezes na sua vida sem dizer, que na maioria das vezes o homem cai em contradição se afastando da essência da verdade e aproximando-se da não-verdade.



Conclusão


O objetivo de Heidegger parece o de não querer estabelecer uma nova crença sobre o que é a verdade, mas sim pretende formular para todos que porventura se identificarem com sua obra e analisarem, será um bom processo de reflexão filosófica sobre a verdade.
É claro que o autor não encontra e não tenta se aprofundar na questão da essência da verdade, é sentido no texto que quanto mais se aproxima do final, mais abrem-se novas possibilidades de argumentação o que faz das reflexões insuficientes no texto.
Quando ele começa falando sobre a conformidade da coisa com o objeto, podemos raciocinar que a partir do momento que falamos de algo, já sabemos do que estamos falando, então é uma verdade que não precisamos busca-la por que está pré-estabelecida.
Já em relação com a liberdade, podemos ver uma conexão com aquilo que dizemos, somos livres enquanto somos verdadeiros, somos nós mesmos. A verdade do ser é ser de maneira coerente consigo mesmo.
E no final, quando é questionado o erro, vemos que todos são capazes de errar, o erro é apenas uma incoerência
19 que pode fazer parte da essência da verdade por que manifesta o questionamento da busca da verdade, pois temos a consciência do próprio erro.



BibliografiaAGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais. Ed. Unisinos.2002
HEDEGGER, Martin. Conferencias e escritos Filosoficos. Trad.Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores)
Nerici, I. Giuseppe. Introdução à lógica. 9ª ed.São Paulo: Nobel, 1985


1Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger. P.1312 Então talvez a verdade já esteja em nós mesmos. Pode-se dizer que a partir da pergunta, já temos que possuir a resposta, então questionar não levaria a uma nova descoberta. Qual seria então a finalidade de questionar? Pois se a verdade está em nós mesmos, leva a crer que Platão tinha razão de afirmar sobre o mundo das idéias, onde pode estar toda a verdade (ou não) só que há um momento do próprio questionamento que nos remete a tal verdade. (Érica)3 proposição é a expressão do juízo, ou ainda, a oração que afirma ou nega qualquer coisa do sujeito. E juízo representa o ato que o espírito “afirma ou nega uma coisa de outra”. (Introdução a lógica, Nérice)4Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.1335Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.1346 “Ao fazer uma abordagem sobre Deus, no pensamento de Heidegger, vale destacar, antes de qualquer coisa, que este Filósofo “em determinados aspectos do seu pensar, como metafísica, não demonstra nem ateísmo e muito menos ser teísta”. Sendo assim, não é tarefa fácil discorrer acerca de Deus em Heidegger, devido à complexidade da sua linha de raciocínio, que por sinal, não é apresentada de maneira sistematizada Portanto, para Heidegger Deus só pode ser “explicado” na linguagem poética. Pois nela o homem se cala e quem fala é a própria linguagem e conseqüentemente o ser. E vale lembrar que na concepção do filósofo é no silêncio que Deus se revela”. http://www.scielo.com.br/
7Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.1348 razão universal9 A verdade do ser como alétheia e errância. Prof. Dr. João Bosco Batista. DFIME – Departamento das Filosofias e Métodos – Universidade Federal de São João del -Rei – UFSJ10 será que o autor quer dizer que a verdade deveria ter só uma essência nas tem duas:
- a essência da proposição
- e a essência da coisa
- qual delas é a essência da verdade?
11 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.13512 Então qual seria a verdade desse ente?13 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.13614 “o ser-ai (DAISEN), ou seja, o homem, é , segundo Heidegger, aquele específico ente que se põe o problema do ser,[...] é o ente cuja peculiaridade ontológica consiste em pôr a questão do ser. Segue daí que o modo em que tal questão é posta e enfrentada não é acessório, mas define o ser-aí em sentido profundo: e tal modo é justamente a compreensão interpretativa.” AGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais.p.40715 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.13816 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.13917 p.14018 A verdade do ser como alétheia e errância. Prof. Dr. João Bosco Batista. DFIME – Departamento das Filosofias e Métodos – Universidade Federal de São João del -Rei – UFSJ19 Ser incoerente não é ser o seu próprio eu, se o ser não é legitimamente o que é, não é livre, se não é livre está na sua não-verdade, e a não-verdade é o erro. Chegando ao erro então poderíamos concluir que tudo poderia ser um erro, até questionar sobre a verdade.(ÉRICA)
O Tempo resgata a Verdade da Disputa e da Inveja.
Nicolas Poussin, 1640-2
Musée du Louvre, Paris Image from Olga's Gallery

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