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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

SOBRE A ESSÊNCIA DA VERDADE EM HEIDEGGER

ÉRICA MACLEO

Introdução

O que é veremos no texto, a essência da verdade, não são as “verdades” que temos como verdade, aquelas supostas verdades que recebemos todos os dias desde o início de nosso entendimento, mas sim a verdade como um todo, a verdade nela mesma, como princípio e fim nela mesma. O questionar sobre “qual a possibilidade para falar das coisas?” E qual a possibilidade de o fato ser coerente com aquilo que se pensa do fato.
Ainda é introduzido no texto, a argumentação sobre o erro, qual é a importância , se houver, do erro na busca pela verdade? O erro faz com que se encontre argumentos para uma verdade coerente?
Heidegger usa expressões como liberdade, concordância, errância, para se aprofundar no objetivo de mostrar de que modo a essência da verdade pode estar estabelecida em normas completamente questionáveis.
Podemos usar esse texto para auxílio nas articulações proposicionais que são manifestadas em relação a verdade como fundamentação a discussões que necessitam de algo que se manifeste como “soluções” a dúvidas.

A verdade

Há questão “essência da verdade”, não é tratar de algo fora da realidade, porque se converteria na falta de fundamentação onde não se pode talvez encontrar a verdade da essência da verdade. Por isso Heidegger se propõe em tratar no sentido em que a verdade se agrega a realidade.
Ao tratar dessa questão, o bom senso, irá promover um questionamento sobre sua importância, pois não há como argumentar e manter argumentações sobre tal questão.
E o que pode manter o interesse e o debate sobre este assunto é apenas a própria filosofia, pois o senso comum não tem interesse na linguagem filosófica, apenas nas evidências.


“A filosofia, por sua vez, jamais pode refutar o senso comum porque este não tem ouvidos para sua linguagem”.1

Nos orientamos pelo senso comum no dia-a-dia, pois trabalhamos com o que nos parece mais evidente.
Preocupar-se com a verdade é talvez para alguns, o objetivo de encontrarmos nosso ponto de referência, o nosso lugar, saber o porquê de nossa existência, encontras para nossos questionamentos individuais e coletivos.
Enquanto desejamos a verdade real, ao mesmo tempo somos confundidos com a questão da essência da verdade. Porque a verdade real é a verdade, nada mais do que isso.
A verdade que não pode ser questionada tem de estar de acordo com aquilo que temos por autêntico, mas ser autêntico é nada mais do que possuir as propriedades que esperamos daquilo em que questionamos, é simplesmente ter a confirmação concreta daquilo que já temos idealizado, é responder o que já está respondido.
2
Por exemplo: Qual a propriedade de uma caneta? O que esperamos dela? Se vejo algo que me proporcione a escrita, que contenha tinta, e que marque no papel todos os símbolos que desejo perpetuar por um bom tempo, logo denominarei como caneta. Essa é uma verdade por que está de acordo com o que eu conheço e com o que eu vejo.
Verdade também denominada como aquilo que está de acordo com algo que estamos analisando, esse “de acordo” deve estar em conformidade com a proposição
3 proposta.
“De acordo”, é estar conforme com o que se vê da coisa e ainda em conformidade com o que se diz da coisa – a definição que se tem (coisa e sua definição).
Logo a essência da verdade apresenta-se como a conformidade entre a adequação da coisa e o que se conhecesse da mesma. Só pode haver verdade de uma proposição se há verdade na coisa descrita.

“O verdadeiro, seja uma coisa verdadeira ou uma proposição verdadeira, é aquilo que está de acordo, que concorda. Ser verdadeiro e verdade significam aqui: estar de acordo, e isto de duas maneiras: de um lado, a concordância entre uma coisa e o que dela previamente se presume, e , de outro lado, a conformidade entre o que é significado pela enunciação e a coisa.”4

Concepções da essência são: verdade é a adequação da coisa com o conhecimento - veritas adaequatio rei et intellectus e verdade é adequação do conhecimento com a coisa - veritas est adaequatio intellectus ad rem.

“A verdade como adequação da coisa com o conhecimento”, ainda não exprime o pensamento transcendental de Kant, e só torna possível a partir da essência humana enquanto subjetividade, segundo a qual “os objetos se conformam com o nosso conhecimento.”5

Mas isso decorre dá fé cristã onde as coisas, como criaturas singulares correspondem à idéia pré-concebida pelo espírito de Deus6. Concorda e se conformam com a idéia aceitando-o a como verdadeira.

“Faculdade dada por Deus: Intelecto humano adequar-se à idéia. Ora, o intelecto somente é conforme com a idéia. A possibilidade da verdade do conhecimento humano se funda, se todo ente é “criado”, sobre o fato de a coisa e a proposição serem igualmente conformes com a idéia e serem, por isso, coordenados um ao outro a partir da unidade do plano da criação.”7

Fato da coisa e a proposição (essência da verdade) tem que estar conforme com a idéia que se tem da coisa. Verdade é a concordância entre criador (ordem da criação = ordem do mundo) e criatura (coisa = conceito essencial é a sua verdade).
Ordenando os objetos pelo espírito
8 (razão), não mais da ordem teologicamente. Já a evidência pode demonstrar que a verdade também possui um contrário: não–verdade que é a inconformidade da coisa com o que se diz dela (proposição). Reduzindo a verdade da proposição a verdade da coisa, então o que resta investigar é a concordância.

“A não-verdade original, isto é, o velamento do ente em sua totalidade, é mais antigo do que toda a revelação de tal ou tal ente. Pergunta Heidegger: “O que preserva o deixar -ser nesta relação com a dissimulação?”. O autor chama de mistério (Geheimnis) o velamento do ente como tal o que possibilita a relação da dissimulação com o deixar -ser (Seinlassen).”9

Concordância para verdade

A enunciação pode ter concordância com a coisa, mas não quer dizer que é a coisa em si.10

“A adequação não pode significar aqui um igualar-se material enter coisas desiguais. A essência da adequação se determina antes pela natureza da relação que reina entre a enunciação e a coisa. Enquanto esta “relação” permanecer indeterminada e infundada em sua essência, toda e qualquer discussão sobre a possibilidade ou impossibilidade sobre a natureza e o grau desta adequação, se desenvolve no vazio.”11

A enunciação diz que é a coisa “exprime tal qual é, assim como é” e se apresenta e aquilo que está presente é o ente.
Comportamento (é toda relação de abertura para com algo) está aberto para o ente. A abertura que o homem tem com ente depende do ente e do seu comportamento, como se expõe e se expressa, como ele se apresenta se mostrando da maneira que ele automaticamente “entra” na enunciação.
Se dermos o exemplo seguinte: Temos a caneta, sabemos como é uma caneta. Quando a vemos dizemos: - É uma caneta. Mas se ela é de formato diferente, por exemplo, é um triângulo, com uma das pontas com uma caneta, e seu objetivo é ser caneta, mas ao olharmos não percebemos que é uma caneta, então não vamos denominá-lo como caneta, e sim como um triângulo, por que foi a primeira coisa que nos foi apresentada. Logo o ente não exprimiu assim como ele é.
12
A enunciação é conforme a abertura para com algo (seu comportamento) que deve se guiar pela enunciação, pois é através dela que aquilo que ela quer apresentar se torna adequado para tal apresentação. Mas se abertura (onde o ente se torna suscetível e se expressa com é) já torna possível a conformidade da enunciação, então isso pode ser considerado “mais original como a essência da verdade”. 13
Essa última conclusão faz com que a verdade vinda da enunciação seja incoerente porque a verdade original não tem seu princípio na proposição.
O autor coloca a seguinte questão: “qual é o fundamento da possibilidade intrínseca da abertura que mantém o comportamento e que se dá antecipadamente uma medida? É somente desta possibilidade intrínseca da abertura do comportamento que a conformidade da proposição recebe a aparência de realizar a essência da verdade.]

Liberdade para verdade

A liberdade aparece para aprofunadar a reflexao juntamente com a verdade é buscando a problematizaçao da essencia do homem que está velada no ser-ai
14.
A essência da verdade aparece como a liberdade aonde se fundamenta a conformidade porque é o “estar conforme” que permite através da liberdade aceitar ou escolher e vamos escolher o que está e se apresenta com mais conformidade. Mas isso não quer dizer que o homem estará responsável pela verdade e que com isso ele poderá decidir qual a sua verdade ele deve se basear no bom senso e com apresenta uma subjetividade da verdade.

A não-verdade para a verdade

A essência da verdade ao ser demonstrada como parte da liberdade do homem onde atua como responsável por encontrar a verdade demonstra que o homem por ser volúvel nos seus próprios preceitos não pode ser responsável pela fundamentação da verdade. O homem é volúvel por isso o seu bom senso também poderá sê-lo e em vez de dirigirmos-nos a verdade, iremos a não-verdade que é a inconformidade da coisa com aquilo que dizemos dela.
Relação da verdade com a conformidade e liberdade.
A liberdade é aqui para a verdade, algo necessário pois é através da liberdade que o homem consegue ser o que é. O homem é livre para ser sua própria verdade, a essência da verdade é a liberdade, passa a ser sua própria verdade.


“deixar-ser = o entregar-se ao ente”15

E essa verdade pode ser melhor denominada como aquilo que é desvelado (alétheia).
E a verdade não é uma proposição, mas aquilo que o homem passa a desvelar a partir de sua ek-sistencia, mas isso ele só pode através de sua liberdade, liberdade de ser historial.

“deixar-ser = liberdade;
verdade = liberdade em sua essência”
16

Mas o homem ainda pode não deixar que ele seja aquilo que é, assim partindo da não-verdade, sendo um ser dissimulado, e não permitindo sua liberdade.

“a essência da verdade se desvelou como liberdade”17

A essência da verdade como liberdade mostra que o ente aparece desvelado enquanto o deixar-ser do ente também se predispõe em relação ao humor do mesmo que é o que permite ou não a revelação do ente em sua totalidade. O que o ente tem que manter é seu desvelamento, a partir que o ente mantém seu velamento a uma dissimulação, o que acarreta no não encontro da verdade, à não-verdade.

A dissimulação para a verdade

A dissimulação é aquilo que esta velado, mas o que está velado é mais comum e antigo que o próprio desvelamento do ente, a própria não-verdade (desacordo de um ente com sua essência). Se temos a não verdade então teremos a não - essência já que ela é essencialmente a parte do velamento. Mas talvez esse mistério da essência não seja tão importante ser desvelado.

A errância para a verdade

O homem só in-siste ao mesmo tempo em que ek-siste e cai na errância, somente por ek-sistir e in-sitir. É a errância que se opõe a essência da verdade, é ela que mantém o velamento sobre o mistério e sobre a essência da verdade e faz apenas conhecer a não - essência da verdade.


“A errância ocupa no pensamento de Heidegger sobre a essência da verdade[...] O erro vai de um simples engano até o “desgarramento e o perder-se de nossas atitudes e nossas decisões essenciais”. A errância tem uma conotação ontológico -historial. Heidegger enfatiza a situação historial e existencial de errância que condiciona a humanidade e o ser-aí,[...] O desgarramento é o nível mais profundo e mais grave da errância que nos ameaça. Ele representa a situação de decaída e impotência que sempre envolve o homem e o ameaça historialmente. O desgarramento é conexo com o esquecimento do mistério. [...] Vemos deste modo que o caminhar historial do homem é essencialmente errante. Isto se torna compreensível pelo caráter ontológico in-sistente ek-sistente do homem.”18

Como todos podem errar, diz Heidegger, o homem passa por esse processo do erro por diversas vezes na sua vida sem dizer, que na maioria das vezes o homem cai em contradição se afastando da essência da verdade e aproximando-se da não-verdade.

Conclusão

O objetivo de Heidegger parece o de não querer estabelecer uma nova crença sobre o que é a verdade, mas sim pretende formular para todos que porventura se identificarem com sua obra e analisarem, será um bom processo de reflexão filosófica sobre a verdade.
É claro que o autor não encontra e não tenta se aprofundar na questão da essência da verdade, é sentido no texto que quanto mais se aproxima do final, mais abrem-se novas possibilidades de argumentação o que faz das reflexões insuficientes no texto.
Quando ele começa falando sobre a conformidade da coisa com o objeto, podemos raciocinar que a partir do momento que falamos de algo, já sabemos do que estamos falando, então é uma verdade que não precisamos busca-la por que está pré-estabelecida.
Já em relação com a liberdade, podemos ver uma conexão com aquilo que dizemos, somos livres enquanto somos verdadeiros, somos nós mesmos. A verdade do ser é ser de maneira coerente consigo mesmo.
E no final, quando é questionado o erro, vemos que todos são capazes de errar, o erro é apenas uma incoerência
19 que pode fazer parte da essência da verdade por que manifesta o questionamento da busca da verdade, pois temos a consciência do próprio erro.

Bibliografia

AGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais. Ed. Unisinos.2002
HEDEGGER, Martin. Conferencias e escritos Filosoficos. Trad.Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores)
Nerici, I. Giuseppe. Introdução à lógica. 9ª ed.São Paulo: Nobel, 1985

Notas

1Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger. P.1312 Então talvez a verdade já esteja em nós mesmos. Pode-se dizer que a partir da pergunta, já temos que possuir a resposta, então questionar não levaria a uma nova descoberta. Qual seria então a finalidade de questionar? Pois se a verdade está em nós mesmos, leva a crer que Platão tinha razão de afirmar sobre o mundo das idéias, onde pode estar toda a verdade (ou não) só que há um momento do próprio questionamento que nos remete a tal verdade. (Érica)3 proposição é a expressão do juízo, ou ainda, a oração que afirma ou nega qualquer coisa do sujeito. E juízo representa o ato que o espírito “afirma ou nega uma coisa de outra”. (Introdução a lógica, Nérice)4Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.1335Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.1346 “Ao fazer uma abordagem sobre Deus, no pensamento de Heidegger, vale destacar, antes de qualquer coisa, que este Filósofo “em determinados aspectos do seu pensar, como metafísica, não demonstra nem ateísmo e muito menos ser teísta”. Sendo assim, não é tarefa fácil discorrer acerca de Deus em Heidegger, devido à complexidade da sua linha de raciocínio, que por sinal, não é apresentada de maneira sistematizada Portanto, para Heidegger Deus só pode ser “explicado” na linguagem poética. Pois nela o homem se cala e quem fala é a própria linguagem e conseqüentemente o ser. E vale lembrar que na concepção do filósofo é no silêncio que Deus se revela”. www.scielo.com.br
7Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.1348 razão universal9 A verdade do ser como alétheia e errância. Prof. Dr. João Bosco Batista. DFIME – Departamento das Filosofias e Métodos – Universidade Federal de São João del -Rei – UFSJ10 será que o autor quer dizer que a verdade deveria ter só uma essência nas tem duas:
- a essência da proposição
- e a essência da coisa
- qual delas é a essência da verdade?
11 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.13512 Então qual seria a verdade desse ente?13 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger p.13614 “o ser-ai (DAISEN), ou seja, o homem, é , segundo Heidegger, aquele específico ente que se põe o problema do ser,[...] é o ente cuja peculiaridade ontológica consiste em pôr a questão do ser. Segue daí que o modo em que tal questão é posta e enfrentada não é acessório, mas define o ser-aí em sentido profundo: e tal modo é justamente a compreensão interpretativa.” AGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais.p.40715 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.13816 Sobre a essência da verdade, Martin Heidegger P.13917 p.14018 A verdade do ser como alétheia e errância. Prof. Dr. João Bosco Batista. DFIME – Departamento das Filosofias e Métodos – Universidade Federal de São João del -Rei – UFSJ19 Ser incoerente não é ser o seu próprio eu, se o ser não é legitimamente o que é, não é livre, se não é livre está na sua não-verdade, e a não-verdade é o erro. Chegando ao erro então poderíamos concluir que tudo poderia ser um erro, até questionar sobre a verdade.(ÉRICA)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Jeremy Bentham

ÉRICA MACLEO

Definições e comentários de Jeremy Bentham em
relação aos princípios da moral e da legislação em relação ao interesse da comunidade e o interesse pessoal do indivíduo





INTRODUÇÃO






Jeremy Bentham, nasceu em 1748 em Londres, defensor do utilitarismo, lutou e criticou a forma de legislação de seu país. Pois ele via nesta teoria grandes vantagens em relação principalmente a sociedade como um todo, pois ele acredita que o homem vivendo em sociedade e obedecendo regras (leis), ele (o indivíduo parte desta sociedade) será mais feliz e terá seus direito protegidos pelo legislador (pessoa imparcial que decide pela maior e melhor felicidade para a comunidade).
Bentham nesta obra Uma introdução aos Princípios da moral e da Legislação (1789) defende o utilitarismo que substitui o direito natural. Além de estudar formas de aplicar estas regras utilitárias onde todos colaborariam para o bem e felicidade da comunidade (com a maximização do prazer e a diminuição da dor), logo ele mostra que talvez apenas com um certo tipo de lei, aqui estipulada como lei penal, seria possível que todos os indivíduos colaborassem para a felicidade da sociedade em geral. Bentham contou com a colaboração de exímios seguidores como James Mill e seu filho, John Stuart Mill. Bentham morre em 1832, mas sua obra é continuada e reformulada por John Stuart Mill.
Este artigo pretende apresentar a obra Uma introdução aos Princípios da moral e da Legislação de Jeremy Bentham, além de esboçar analises de alguns comentaristas, os quais são Robert E. Goodin “La utilidad y el bien” da obra de Singer “Compêndio de ética” e James Rachels “Os elementos da filosofia da moral”.

O princípio da utilidade1



Tudo que o homem se propõe a fazer esta sujeito a dois sentimentos que definem suas escolhas, a dor e o prazer. E o princípio da utilidade2 admitindo esse poder que há essas influências na vida do homem a ponto de definir o que será feito, os coloca como fundamentação em sua teoria, visando a felicidade através da razão e da lei.
Utilidade3 esta definida como algo que proporcionará o bem da comunidade ou do indivíduo, o que lhe será útil, mas não podemos pensar em comunidade sem entender que o interesse dessa comunidade, não passa de interesses individuais unidos em um corpo fictício, então percebemos que o interesse da comunidade, o que é útil para ela, é aquilo que é útil para o indivíduo, e este indivíduo é dominado pelo instinto de aumentar seu prazer e diminuir sua dor4. Logo o indivíduo na comunidade procura aquilo que lhe traz mais felicidade, individual e por conseqüência, também coletiva5, que será o bem selecionado pela maioria composta por esta comunidade.
Tudo o que é útil conforme o princípio de utilidade pode se dizer que deve ser praticado, que é reto praticar e que não é errado pratica-lá. Este princípio é contestado apenas por pessoas desenformadas, mas que provavelmente já usou desse princípio ao longo da sua vida sem o sabe-lo, diz Bentham.


PRINCÍPIOS CONTRÁRIOS AO DA UTILIDADE


Aplicações errôneas do princípio da utilidade:
O ascetismo6, que aprova a minimização da felicidade, pois acredita que o prazer a longo prazo poderá trazer mais dor.
Princípio da antipatia e da simpatia, constituídos na desaprovação de ações com razões suficientes em si, além de pecar pela severidade, injustiças, e motivos de punições não merecidas.
Princípio teológico, não se destingue muito dos outros princípios acima (ou já comentados).
Portanto, o princípio que é verdadeiramente correto é aquele que tem total aprovação em todos os casos que serão moralmente julgados, evitando-se de fazer o mal e procurando a “máxima felicidade7 para o maior número de pessoas”8. Também é exposto pelo comentador James Rachels que essa moralidade além de ter o objetivo de alcançar a maior felicidade possível neste mundo ainda, deixa claro que esta não é aquela moralidade com intuito de agradar a Deus, é somente busca de felicidade.9
As quatro sanções ou fontes da dor e do prazer
Objetivo do legislador é a satisfação dos prazeres e a segurança da comunidade e os indivíduos, integrantes desta comunidade, devem agir em conformidade desses objetivos.
E analisando neste capitulo o prazer e a dor como causalidade eficiente ou de meio, não mais somente como fim, e as sanções que derivam a dor e o prazer designadas com fontes físicas, política, moral e religiosa que estão definidas abaixo.
A física é aquilo que acontece naturalmente sem intervenção do homem, tanto no prazer ou na dor.
Já na política é onde esses dois senhores esperam por algo onde há ação de alguém ou da comunidade ou ainda da vontade do soberano.
Para derivarem da sanção moral a dor e o prazer dependem de uma regra já estabelecida.
E se depender de algo superior é a sanção religiosa.
Os três primeiros podemos experinciá-los na vida presente e o ultimo na vida presente e na futura.


MÉTODO PARA MEDIR UMA SOMA DE PRAZER OU DE DOR


O legislador tendo como objetivo aumentar o prazer e diminuir a dor deve ter em mente o que é possível fazer tendo conhecimento do valor de cada um que é dividida em quatro circunstância que definirá o ato a ser considerado através também, de mais duas circunstâncias.
As quatro primeiras são: intensidade, duração, certeza ou incerteza, proximidade no tempo ou a sua longinqüidade.
As outras duas são: fecundidade e pureza.
Além de ser considerada também a extensão.(número de pessoas favorecidas)
Com todas essas circunstâncias aplicamos a soma de todos os prazeres fazer a contabilização se o ato é bom ou ruim, além de considerar a quantidade de pessoas para que esse ato é bom.
“Analogamente pode-se aplicar o mesmo processo ao prazer e à dor, qualquer que seja a forma sob a qual apareçam e qualquer que seja a denominação com a qual se identifiquem. O processo pode ser aplicado ao prazer, quer este se denomine um bem (o qual constitui propriamente a causa ou o instrumento do prazer), quer se chame proveito ( o qual constitui um prazer distante, ou a causa ou instrumento de um prazer distante, ou a causa ou instrumento de um prazer distante), ou conveniência, ou vantagem, beneficio, recompensa, felicidade e assim por diante. Pode o método também ser aplicado à dor, quer esta se denomine um mal ( o qual eqüivale ao oposto do bem), quer se chame prejuízo, ou inconveniência, ou desvantagem, ou perda, ou infelicidade, e assim por diante.”10
Bentham diz que antes de aplicar o método é dever seguir julgamentos morais ação legislativa ou judicial, mas que o processo ajuda a se aproximar da ação correta.11


AS AÇÕES HUMANAS EM GERAL


A partir de que o homem deva obedecer certas leis, ele também está promovendo um ato de felicidade para si pois não sofrerá punições, logo dores. E é através da lei penal que os governantes agem para manter a ordem e a felicidade da sociedade. E para julgar o ato é necessário a soma das diferenças entre conseqüências de um ato12 bom ou mau, e essas conseqüências são um evento que do ponto de vista causalidade é dividida de quatro modos:
“(1) por via de causalidade produtora;
(2) por via de derivação;
(3) por via de conexão colateral;
(4) por via de influência conjunta”.13
Mas não é somente julgado as conseqüências, mas também o agir racional e o agir irracional que demonstra as intenções14 do ato, logo as conseqüências que derivam ou que poderiam derivar dele. “Essa soma de conseqüências boas e más para decidir o que deve ser feito, a atitude a ser tomada, é um dos equívocos da teoria Utilitarista, pois se torna incompatível com o ideal de justiça, pois pode ser medido que um ato trará conseqüências boas para a maioria das pessoas, mas pode estar promovendo a infelicidade de uma pessoa, o que a justiça não pode aceitar, pois defende a individualidade e o tratamento conforme a verdade desse indivíduo.”15
As circunstâncias que acompanham as intenções podem ser definidas por três estados: consciência16, inconsciência17 e falsa consciência18.
Há ainda dois fatores que dependem da tendência do ato que são: “o motivo particular e a disposição geral que o ato denota”19.
Já as circunstâncias que acompanha os atos20 devem ser consideradas antes de determinar as conseqüências mas sem ter a certeza do ato no seu conjunto21. Todo o acontecimento tem circunstâncias mas não necessariamente todo evento estas circunstâncias relacionadas .


A INTENCIONALIDADE


A intencionalidade que divide-se em dois fatores: “o próprio ato e as conseqüências do ato”22 que podem demonstrar se a ação é boa ou má, além de vir à afetar o ato, mas para classificar a intenção de boa ou má devesse levar em conta as circunstâncias do ato. Afetando qualquer dos fatores, podemos considerar intencional mas se esses dois fatores não fizerem partes das intenções do indivíduo podemos considerar um ato não intencional.
A consciência
Cabe a nesta seção observarmos o quanto a intenção é analisada de forma abrangente em relação ao ato.
Um ato ruim com intenção e resultado considerado bom se diz que o motivo estabelecido foi bom, e motivo mau quando o ato se originou de má intenção. Mas Bentham diz que sempre temos a intenção boa23 em qualquer motivo e conseqüência, mas ainda a intenção pode ser má também em qualquer dos resultados de conseqüências acompanhado dos motivos.
Os motivos
§ Significações diversas da palavra motivo
Motivo definido aqui como faculdade de um ser que pensa e destingue as ações. Mas os atos da faculdade intelectual não influenciam nos atos da vontade, só serve como agentes especulativo, por não influenciar externamente, não produz nem prazer e nem dor.
O único motivo que pode influenciar o indivíduo a agir ou não é a vontade, podendo ser denominados como motivos práticos.
Há dois fatos que desencadeiam tipos de motivos diferentes:
percepção interna
evento externo
O motivo é o que leva o indivíduo a agir, tentando livrar-se da dor ou perseguindo o prazer. O in esse é o motivo denominado assim para definir aquele motivo interno em perspectiva, que pode ser influenciado pelo motivo da faculdade intelectual.
§ Inexistência da motivos constantemente bons ou constantemente maus
O interesse da motivação é o que denomina se ele é boa ou má, porque é a partir de um interesse que se pode denominar o motivo sem uma situação específica. Alguns motivos que podem ser denominados como bons ou maus.
Motivos:
- Nos prazeres da riqueza o motivo é interesse pecuniário;
Da amizade é desejo de captar afeição;
Nos prazeres derivantes da sanção moral o motivo é reputação;
Do poder pode se dividir entre criminoso e abominável ou licito e até credor de elogios;
Já as dores e os prazeres da sanção religiosa o motivo é a própria sanção religiosa;
Da simpatia é a boa vontade;
Da malevolência é a má vontade;
Nas dores o motivo são de autopreservação, nas dores do esforço o motivo é o amor ao sossego.
Por isso Bentham diz que não há motivo que seja mau por si mesmo, como não há motivo exclusivamente bom, podendo ainda serem indiferentes.
Há motivos que considerados independentes dos seus efeitos, não são maus quando dá-se o nome de um termo considerado mau.
Há como elencar, segundo bentham, os motivos bons, maus e indiferentes.
“ No elenco dos motivos bons poderiam ser colocados os termos:
boa vontade ou benevolência;
amor à reputação;
desejo da amizade;
religião.
No catálogo dos motivos maus seria colocado o seguinte:
desgosto ou descontentamento.
No elenco dos motivos neutros ou indiferentes colocar-se-iam os seguintes:
desejo físico;
interesse pecuniário;
amor ao poder;
autopreservaçao, incluindo o temor das dores dos sentimentos, o amor ao sossego e o amor à vida.”24
E a única maneira talvez de compreender se o motivo é bom ou mau é em relação ao efeito que causa para cada indivíduo, a partir da intenção.
Mas os motivos citados acima poderiam ser distribuídos de uma forma em que os interesses do indivíduo pudessem se harmonizar conforme o interesse da comunidade, o que seria disposto da forma abaixo:
“sob este prisma, os motivos podem ser divididos em sociais , dissociais e pessoais (self-regarding).
Entre os motivos sociais classificar-se-iam os seguintes:
boa vontade ou benevolência;
amor à reputação;25
desejo de amizade;26
religião.27
Entre os motivos dissociais classificar-se-iam o seguinte:
desgosto ou descontentamento.
Entre os motivos pessoais (self-regarding) classificar-se-iam os seguintes:
desejo físico;
interesse pecuniário;
amor ao poder;
autopreservaçao, incluindo o temor das dores dos sentidos, amor ao sossego e o amor à vida.”28
§ Ordem de preeminência entre os motivos
A ordem em questão é a que segue: benevolência, amor a reputação, desejo da amizade e ditames da religião, é nesta ordem que coincidem o princípio da utilidade. Mesmo que em relação a benevolência esta seja parcial onde seja exposto em um grupo a inteligência de apenas uma pessoa, mas esta não se contradiz por que a benevolência só pode estar contraditória o público e o privado apenas acidentalmente. Já no amor a reputação a única situação seria o princípio do ascetismo ou o princípio da simpatia e da antipatia. No desejo da amizade ele coincide com o da benevolência mais pessoais. E no princípio da religião, além das pessoas se voltarem para sua própria religião, só há perspectivas conforme os interesses da própria pessoa, mas o interesse do princípio da religião se aproximam muito da utilidade.
“Porque os ditames da sanção moral voa coincidindo sempre mais com os da utilidade, e os da religião coincidem com os da sanção moral são influências dos por eles”29
§ Conflito entre motivos
Há dois motivos: impulsionante ou demovente. O primeiro é aquele que promove a ação, e o segundo é aquele que inibe a ação. E necessário estar a par desses motivos para que haja um julgamento correto das questões que são dispostas.
As disposições humanas em geral
A disposição é a maneira pela qual se pode julgar a atitude boa ou má através da confissão e admissão de um ou outro motivo que leva o indivíduo a praticar tal ato. E essa disposição pode ser dividida de duas maneiras:
“(1) ou sobre a felicidade própria
(2) ou sobre a felicidade de outros.”
A primeira compete mais ao moralista reformá-la quando não boa, apenas quando afeta aos outros é levada a julgamento pelas leis penais. Ter uma disposição má é praticar atos de tendência perniciosos.
“ Aqui vemos a importância das circunstâncias da intencionalidade, da consciência da inconsciência e da falsa suposição”.30
As intenções constituem-se de suas causas e as causas os motivos, esse o qual pode ser dividido em dois: sedutor ou corruptor, denominação para distinção, agindo como motivo demovente pode ser denominado preservador que também possui a divisão de permanentes e ocasionais, entendendo-se que o primeiro tende a dissuadir uma pessoa de qualquer ato prejudicial e o segundo pode às vezes agir ou não nesta direção.
“ Ao que parece, podem eles ser reduzidos a dois itens, isto é:
amor ao sossego;...
a autopreservaçao. Enquanto se opõe aos perigos aos quais uma pessoa pode estar exposta na prossecução da tentativa.
Esses perigos podem ser:
ou de natureza puramente física;
ou perigos resultantes da ação moral;... Por isso, os perigos que podem ameaçar um ofensor ou criminoso deste ponto de vista dependem, quaisquer que possam ser, do evento da sua detecção, podendo, por conseguinte, ser todos compreendidos sob o termo perigo de detecção.
Os perigos que dependem da detecção podem, por sua vez, subdividir-se em dois tipos:
aquele que pode resultar de qualquer oposição que possa ser feita ao ato imediatamente, ou seja, no próprio momento em que o ato tem lugar;
aquele que diz respeito à punição legal, ou a outro sofrimento, que pode sobreviver a distancia ao final do ato.”31
Os motivos preservadores, juntamente com os motivos sedutores podem levar a força da tentação, pois a tentação do crime pode ser forte ao ponto de levar o pretenso criminoso a ver o ato com o redentor do incômodo e do perigo.
É estabelecido quatro normas de avaliação de um ato mau através da força da tentação.
“Primeira norma: uma vez conhecida a força da tentação, a maldade da disposição manifestada pelo ato está em função da aparente perniciosidade do ato.
Segunda norma: conhecendo-se a aparente perniciosidade de um ato, a disposição de uma pessoa é tanto mais depravada, quanto mais fraca for a tentação à qual sucumbiu
Terceira norma: uma vez conhecida a perniciosidade do ato, a evidencia que a mesma proporciona em prova da pravidade da disposição de uma pessoa é tanto menos convincente, quanto mais forte for a tentação à qual a pessoa sucumbiu.
Quarta norma: quando o motivo for do tipo dissocial, uma vez conhecidas a aparente perniciosodade do ato e a força da tentação, a pravidade da disposição é proporcional ao grau de deliberação que o acompanha.”32
Casos em que não cabe punir
O objetivo das leis é manter a felicidade geral, então a punição que é um ato que traz infelicidade só pode ser aceita para evitar uma infelicidade maior, não se pode aplicar punição, segundo Bentham, nos casos abaixo:
“(1) Quando não houver motivo”;...
(2) Quando a punição só pode ser ineficaz;...
(3)Quando a punição for inútil ou excessiva dispendiosa;...
(4)Quando a punição for supérflua... “33
A proporcionalidade entre as punições e os crimes
Para evitar os prejuízos de uma punição segue quatro objetivos subordinados ao legislador.
“(1)... agir de forma, que não haja possibilidade de se cometer nenhuma ofensa ou crime.
(2)... a escolher sempre o crime menos prejudicial, dos dois que servem à finalidade almejada pelo criminoso.
(3)...induzi-lo a acusar aquele mínimo de prejuízo que é indispensável para alcançar o beneficio que espera do seu crime.
(4) O último objetivo, qualquer que seja o prejuízo que o legislador se proponha evitar, será evitá-lo da maneira menos dispendiosa que seja possível.”34
E esses objetivos estabelecem as normas de proporção entre as punições.
“Primeira norma:... o valor ou gravidade da punição não deve em nenhum caos inferior ao que for suficiente para superar o valor do beneficio da ofensa ou crime .
Segunda norma:...quanto maior o prejuízo derivante do crime, tanto maior será o preço que pode valer a pena pagar no caminho da punição.
Terceira norma:...Quando houver dois crimes em concorrência, a punição estabelecida o crime maior deve ser suficiente para induzir uma pessoa a preferir o menor.
Quarta norma:...A punição deve ser regulada de tal forma para cada crime particular, que para cada nova parte ou etapa do prejuízo possa haver um motivo que dissuada o criminoso de produzi-la.
Quinta norma:...A punição não deve em caso algum ser maior do que for necessário para que esta seja conforme às aqui indicadas.
Sexta norma:...Para que a quantidade de punição realmente infligida a cada criminoso possa corresponder à quantidade tencionada para criminosos semelhantes em geral, é necessário sempre levar em consideração as varias circunstâncias que influenciam a sensibilidade de cada um.”35
As quatros primeiras normas demarcam os limites da diminuição do castigo, a quinta o aumento do castigo. As cinco primeiras guiam o legislador e a sexta a ele e ao juiz.
Os limites do setor penal da jurisprudência
§ Os limites entre a ética privada e a arte da legislação
Ética é definida como a arte de dirigir as ações do homem ( as suas e as dos outros indivíduos).
Quando o próprio indivíduo dirige suas ações, denomina-se a arte do autogoverno ou seja, ética privada. Em relação aos outros agentes, que são dividido em duas espécies: seres humanos e animais (Os animais para os utilitaristas não são tratados como a ética cristã promove, pois não importa se possuem alma ou se soa racionais mais sim se são capazes de sentir dor, sofrimento, pois tanto para Bentham quanto para Mill, os humanos e os não-humanos igualmente tem direito ao cuidado moral, não que haja diferenças entre as espécies, mas que por esse fato não seja promovido a infelicidade desses seres diferentes)36 .
A seguir veremos algumas denominações que serão importantes para o entendimento do encerramento da desta obra de Bentham.
Legislação: arte de governar.
Administração: arte de decidir e tomar providências práticas.
Educação pública: arte exercida por aqueles cujo ofício é supervisionar o comportamento da coletividade inteira.
A ética geral, em relação a felicidade dependerá primeiro do interesse pessoal (obrigação em relação a si mesmo) e depois dos outros (obrigação em relação aos outros, ao próximo).
A ética legislativa é aquela que tem por intuito a obrigação em relação ao próximo.
A felicidade do próximo pode ser protegida:
“(1) de uma forma negativa, abstendo-se de diminui-la (probidade);
(2) de uma forma positiva, procurando aumentá-la (benquerença).”37
Qual o interesse do legislador em promover a proteção dos interesses do próximo? O único interesse, diz Bentham, são os seus próprios interesses, portanto a ética privada e a arte da legislação não andam, separadas. Deseja o mesmo fim: a felicidade38.
Então qual seria diferença entre a ética privada e a do legislador? Elas não são perfeitas e inteiramente as mesmas em atos. Todo ato benéfico deve ser praticado pelo indivíduo em função do coletivo, sem a imposição do legislador. Se a pessoa age errado em relação a sua felicidade, só pode ser por inadvertência ou falsa suposição à respeito da circunstâncias.
O legislador o máximo que pode conseguir é deixar de maneira eficaz a ética privada, orientando os indivíduos sob a influência da sanção moral, ele (o legislador) deve agir de forma que não ultrapasse os limites levando os problemas de ordem pública para o individual. O legislador deve atuar mais seguramente e necessita mais de sua presença nas normas de probidade (que se opõe as ofensas contra a propriedade), pois aqui será competência da legislação definir ou expor o que é realmente da cada um. O mesmo acontece ao estado que sem legislação, não teria como saber o que é seu. Então é por isso que se faz a necessidade do legislador, para mostrar primeiro o que é legislação para depois a ética privada.
Já nas normas da benquerença fica extensivamente em grande parte sobre a regência da ética privada, pois é visto o motivo que levou o indivíduo a praticar tal ação “...em uma palavra, a qualidade benéfica do ato depende do fato de provir de motivos que possibilitam a conduta da pessoa como livre e voluntária,...”39 .


Conclusão


O que Bentham tenta esclarecer nesta obra é como pode ser mantida a felicidade de um indivíduo sem que prejudique o seu próximo. E é por isso que ele coloca como necessidade a ética privada e arte da legislação, pois a primeira vê a felicidade do indivíduo e a segunda tenta harmonizar esta felicidade, com o bem da comunidade que é aplicado pelo legislador.
Mas o que os comentadores apresentam é que há uma incompatibilidade entre o bem do indivíduo e o bem da comunidade há que esse indivíduo pertence. Pois para haver a felicidade da sociedade é preciso que todos estejam num mesmo patamar financeiro, intelectual, etc. quando há qualquer diferença, em desejos, vontades, alguém não terá seus prazeres satisfeitos, logo o utilitarismo não pode abranger a felicidade total entre indivíduo e sociedade.

BIBLIOGRAFIABentham, Jeremy. Uma introdução aos Princípios da moral e da Legislação/Os pensadores. 3ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
Luft, Celso Pedro.Prof. Barbosa, Francisco de Assis e Pereira, Manuel da cunha; Mini Dicionário Luft; SP; Editora Scipione Ltda; 1991.
Rachels, James. Os elementos da filosofia da moral. Barueri, SP: Manole, 2006
Singer, Peter. Compendio de ética. Madrid: Alianza editorial, 2000.


ABREVIATURAS USADASPML: Uma introdução aos Princípios da moral e da Legislação


1 “Entre ações alternativas ou políticas sociais, devesse escolher aquelas que possuem as melhores consequencias..”. Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels
2 É o que trata a obra que está sendo discutida nesse artigo: “UMA INTRODUÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA MORAL E DA LEGISLAÇÃO” de Jeremy Bentham, que é definido como “o princípio que aprova e desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo, ou o que é a mesma coisa em outros termos, segundo a tendência a promover ou a comprometer a referida felicidade. Digo qualquer ação, com o que tenciono dizer que isto vale não somente para qualquer ação de um indivíduo particular, mas também de qualquer ato ou medida de governo.”
3 Utilidade: utilitarismo, teoria do bem, julga pelas preferências e interesses gerais. E para ser um bem deve ser bom para alguém. “Obra Peter Singer. Compêndio de ética “
4 Hedonista : busca de satisfação, fomentando o prazer e evitando a dor. “Obra Peter Singer. Compêndio de ética “
5 O problema exposto no utilitarismo em relação a felicidade de todos, sendo imparcial, é que colocado por James Rachels como falha, pois devesse abdicar de nossa própria felicidade para promover a felicidade do próximo, e se não estamos felizes então o utilitarismo não alcança a imparcialidade total, e não leva a felicidade para a comunidade. O exemplo dado por James Rachels é de abandonar a vontade de ir ao cinema, por exemplo, e dar esse dinheiro as crianças que tem fome, estarei promovendo a felicidade dessas crianças, mas abandoando o meu próprio desejo (prazer) de ir ao cinema. Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels.
6 Doutrina que se baseia no desprezo do corpo e das sensações corporais e que, por meio da ascese, tente a assegurar o triunfo do espirito sobre os instintos e as paixões. (conforme dicionário Luft)
7 “Existência livre de dor e rica tanto quanto possível em contentamento” Stuart Mill. Citação da Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels.
8 HISTORIA DA FILOSOFIA , volume III, página 313.
9 Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels
10 UMA INTRODUÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA MORAL E DA LEGISLAÇÃO. Pensadores, pag.18
11 O item VIII desse capítulo serve como ilustração sobre as circunstâncias tratadas no mesmo.
12 Materiais (consistem no prazer e na dor) ou imateriais ( sem relação com as conseqüências).
13 Conforme PML. Página 21.
14 (1) o estado da vontade ou da intenção, com respeito ao próprio ato; (2) o estado da inteligência, ou das faculdades de percepção, em relação às circunstâncias que acompanham, ou parecem acompanhar a intenção. Conforme item V do livro PML. Página 19
15 Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels
16 Quando a parte em questão acredita existirem precisamente aquelas circunstâncias que de fato existem, e não outras. Conforme PML. Página 20
17 Quando a pessoa deixa de perceber a existência de certas circunstâncias que na realidade existem. Conforme PML. Página 20
18 Quando alguém acredita ou imagina existirem certas circunstâncias que na verdade não são reais. Conforme PML. Página 20
19 Conforme PML. Página 20
20 circunstâncias de um ato: qualquer coisa pode constituir uma circunstancia de qualquer outra. Conforme PML. Página 20
21 Nunca poderemos saber o se o ato é benéfico, ou indiferente, ou prejudicial. Porque que dependendo das circunstâncias pode ser um ato benéfico ou totalmente o contrário por exemplo matar uma pessoa. Conforme PML. Página 20
22 Conforme PML. Página 23
23 Nesta parte cito a frase “em conseqüência, pode-se dizer com inteira propriedade de termos que a intenção é boa, qualquer que tenha sido o motivo” Conforme PML. Página 26. Onde acredito que sempre a intenção é boa e não como vem logo abaixo no mesmo texto e página dizendo que a intenção pode ser má, pois acredito que a intenção pode ser boa individualmente, mesmo que seja a de fazer o mau a outra pessoa, pode ter sido uma interpretação equivocada de minha parte em relação a colocação de Bentham e seu contexto.
24 Conforme PML. Página 41
25 Pode ser englobado sob o titulo de semi-social
26 Pode ser englobado sob o titulo de semi-social
27 Pode ser englobado sob o titulo de semi-social
28 Conforme PML. Página 42
29 Conforme PML. Página 46
30 Conforme PML. Página 51
31 Conforme PML. Páginas 54 a 55
32 Conforme PML. Páginas 56 a 57
33 Conforme PML. Página 59
34 Conforme PML. Página 60
35 Conforme PML. Páginas 60, 61 e 62
36 Obra “Os elementos da Filosofia da moral/ James Rachels
37 Conforme PML. Página 64
38 Esta se parece com a teoria aristotélica onde o é requerida a felicidade como fim. “Obra Peter Singer. Compendio de ética “
39 Conforme PML. Página 68



IMAGEM:http://pt.wikipedia.org/wiki/Jeremy_Bentham

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A VOLTA DA FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO BASEADO NO TEXTO DE ANTONIO SEVERINO

ÉRICA MACLEO

INTRODUÇÃO

O que se pretende nos dias de hoje, é analisar uma nova possibilidade, que à muito tempo nos foi tirada, a filosofia para o ensino fundamental e médio.
Algumas escolas, à poucos anos retomaram a filosofia na sua base curricular, mas não tinham o apoio que necessitavam para manter esse conteúdo da forma em que ele deve ser apresentado.
Mas agora com a volta da obrigatoriedade no ensino médio, a questão é outra: a filosofia é só mais um complemento na carga horária, ou ela pode fazer diferença para os educandos?
Veremos aqui a importância deste conteúdo, e se afinal ele precisa deste destaque de pertencer a carga horária dos currículos escolares.

O autor quer analisar a filosofia na educação formal, questionando a sua importância e tomando partido de que a filosofia é relevante ao currículo de crianças e adolescentes, por apresentar uma base concreta para as sociedades que esses jovens vivem.
A filosofia, diz o autor, é o que pode fazer com que os jovens conheçam e pensem sobre o que acontece a sua volta, porque é ela através da educação que nos faz perceber o movimento contextual do dia-a-dia e nos fazendo ampliar e articular nossas práticas individuais com visão na coletividade, pois é através do conhecimento que seremos capaz de ampliar atos que gerarão mudanças. Esse pensamento pode ser comparado ao “nascimento das idéias” para os alunos, assim como estabelecia Sócrates:
“O diálogo socrático tinha dois momentos.[...]. O primeiro corresponderia às dores do parto, momento em que o filósofo, partindo da premissa de que nada sabia, levava o interlocutor a apresentar suas opiniões. Em seguida, fazia-o perceber as próprias contradições ou ignorâncias para que procedesse a uma depuração intelectual. Mas só a depuração não levava à verdade – chegar a ela constituía a a Segunda parte do processo. Aí , ocorria o “parto das idéias” [expresso pela palavra maiêutica]. Momento de reconstrução do conceito, em que o próprio interlocutor ia “polindo” as noções até chegar ao conceito verdadeiro por aproximações sucessivas”.1
O que é necessário passar aos alunos é que não se deve ver a escola como um simples instituto de habilitação profissional, mas também é necessário, um ambiente onde se terá formação2.
“O que vem a ser essa formação? É o amadurecimento, o desenvolvimento dos estudantes como pessoas humanas. Nós nos formamos quando nos damos conta do sentido de nossa existência , quando tornamos consciência do que viemos fazer no planeta, do porque vivemos”.3
Mas não é apenas da formação escolar que o autor destaca, mas também na educação que recebemos desde o nascimento, todo o convívio que temos com o ambiente em que vivemos e que complementam nosso caráter.
E o que a escola tem como objetivo é adaptar o aluno com sua realidade com a realidade do mundo, apresentando e desenvolvendo conceitos como “ sobre sua inteligência, consciência ética, estética e social”4.
“É toda essa esfera do exercício da dimensão subjetiva da pessoa que nos tornam efetivamente humanos”5.
É a partir desta subjetividade que passamos a ver e perceber um sentido para nossos atos como seres humanos, começamos a reconhecer nossos valores, tanto como pessoa individual como pessoa coletiva que faz parte de uma sociedade. O autor ainda se mostra preocupado com os contra-valores, que são valores
socioculturais que podem levar a alienação do ser humano.
Mas no que a filosofia pode ajudar ou mudar no comportamento? É a filosofia que pode apresentar um educação formativa, pois apenas o conhecimento técnico não é capaz de suprir a necessidade de que o ser humano tem de se sociabilizar, de avaliar nossos atos e de estabelecer a quais valores vamos recorrer.
“É preciso recorrer à modalidade do conhecimento filosófico que é onde desenvolvemos nossa visão mais abrangente do sentido das coisas e da vida, que nos permite buscar, com a devida distancia critica, a significação de nossa existência, e o lugar de cada coisa nela. É o que comumente expressamos ao nos referir ao “pensar”, ao refletir, ao argumentar, ao demonstrar. Usando dos recursos naturais, comuns, da nossa subjetividade”.6
Esses valores não podem ser ensinados em aula de religião, pois abafaria o processo de reflexão e de escolha – LIBERDADE. E nem imposta apenas por partidos políticos. O caminho é inverso, é a partir da filosofia que vai se estabelecer uma reflexão religiosa, política e etc.
É por isso que há necessidade da filosofia desde no inicio da formação educacional, para que haja além de um entendimento, haja também uma compreensão do que lhe está sendo ensinado, uma compreensão do mundo sem ferir a autonomia do educando.
CONCLUSÃO

O que se pode concluir é que a filosofia não é apenas um complemento na carga horária das escolas, mas sim aquilo que irá mudar o pensamento e adicionar conhecimento ao aluno que tiver o privilégio de ter uma boa aula de filosofia.
Será um encaminhamento a busca do saber, além do saber técnico. O aluno verá que pode concluir diferentemente daquilo que lhe apresentaram e que tudo pode ter uma segunda possibilidade, mesmo não deixando de lado aquilo que ele aprendeu nos primórdios da vida.
A filosofia é, e demonstrará novos caminhos para a sociedade que será formada por esses alunos de hoje, e dos alunos futuros.
BIBLIOGRAFIA
SEVERINO, Antônio Joaquim. A filosofia na formação do jovem e a ressignificação de sua experiência existencial.
Luft, Celso Pedro.Prof. Barbosa, Francisco de Assis e Pereira, Manuel da cunha; Mini Dicionário Luft; SP; Editora Scipione Ltda; 1991
FERRARI, Marcio. Sócrates: o mestre em busca da verdade. Revista Nova escola: Os Pensadores vol 2, p.11, ago. 2006.
1 GRANDES PENSADORES Vol. 2 , Revista Nova Escola. Agosto de 2006. Pág. 11
2 S.F. 1. Ação, efeito ou modo de formar.2. constituição de um ser ou de uma sociedade.3. [...].4.maneira pela qual se constitui uma personalidade, um caráter, uma mentalidade; educação.[...].MINI DICIONÁRIO LUFT. pág.303.
3 Texto : “A filosofia na formação do jovem e a ressignificação de sua experiência existencial”. Antônio Joaquim Severino. Pág 185
4 Texto : “A filosofia na formação do jovem e a ressignificação de sua experiência existencial”. Antônio Joaquim Severino. Pág 185
5 Texto : “A filosofia na formação do jovem e a ressignificação de sua experiência existencial”. Antônio Joaquim Severino. Pág 185
6 Texto : “A filosofia na formação do jovem e a ressignificaçao de sua experiência existencial”. Antônio Joaquim Severino. Pág 187

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Possibilidade de relação entre: Teoria, Fato e Verdade.ÉRICA MACHADO LEOPOLDO

TWITTER: @ericamacleo










Se não fosse necessária a teoria, então não seria necessário aprendermos a nos expressar, seria necessário apenas enxergar e observar tudo o que esta a volta, e aprenderíamos tudo sozinhos, o que mostra que o que nos é ensinado faz muita diferença em nossas vidas. Mas os fatos nos ensinam algo? E a verdade existe? Se existe ela tem relação com os fatos ou com as teorias ou quem sabe ainda com os dois. O que é tratado neste artigo é: qual a relação entre fato, teoria e verdade, qual a importância de cada um. Mas ainda questiona se essas perguntas podem realmente serem respondidas. Para tentar encontrar uma solução, foi usado como base, teorias de filósofos de períodos diferentes, além de comentadores atuais, o que cada um deles – filósofos e comentadores – pode concluir a respeito de suas pesquisas filosóficas. Veremos argumentações que nos farão refletir e talvez encontrar caminhos diferentes dos que nos foram propostos.


Palavras-chave: teoria, fato, observação e verdade.






Possibilidade de relação entre: Teoria, Fato e Verdade
A teoria do conhecimento ou epistemologia (do
grego "episteme" - ciência, conhecimento; "logos" – discurso) que procura tratar na filosofia sobre o “conhecimento”, “crenças” para que se possível, possa encaminhar esses argumentos a resposta e essa resposta seja a “verdade” ou as “verdades”, nos encaminha a discussões sobre o que se pode ou não conhecer e qual é a teoria que se usa para chegar a esse conhecer, além de questionar o que se pode ou não acreditar, o que nos parece fato para aceita-lo, ou ainda tomar como verdade? Mas a verdade existe?
Pode haver uma a relação entre fato, teoria e verdade?
Neste artigo veremos algumas teorias sobre essas relações, e o que cada filósofo interpretou, além do que cada um deles questionou em relação a argumentação do outro.
Antes de tentar responder, devemos pensar, refletir e com base segura responder se à uma relação entre fato, teoria e verdade e se estas três denominações pode servir ao real ou só podem ficar na proposição.
No senso comum achamos as definições abaixo:
“Fato: acontecimento; evento.2. o que é real; o que tem sua veracidade reconhecida.3. elemento da locução adverbial de fato; realmente, na verdade [...]”
1
“Teorias: princípios gerais de uma ciência ou arte.2. princípios, plausível ou cientificamente aceitável, proposto para explicar fatos ou eventos observados.[...]”
2
“Verdade: conformidade com a realidade.2. veracidade. 3. Ciosa verdadeira. 4. Exatidão. 5. Sinceridade. 6. Representação de realidade da natureza.”
3
Historicamente encontramos diversas teorias sobre o que podemos chamar de verdade, teoria e fato, até entrelaçamentos entre eles adotados por alguns filósofos, sendo que discutiremos as mais destacadas hipóteses adotadas ao longo dos tempos.
Francis Bacon (1561-1626) assume uma posição da ciência baseada na observação e indução, isto é, preocupada com o método. Nesta visão baconiana não há relação entre fato e teoria, já que a teoria só serve para demonstrar o que foi observado dos fatos que se sucederam, com isso, Bacon da destaque absoluto ao observacionismo como forma de adquirir o conhecimento. Mais adiante veremos que há um filósofo chamado Augusto Comte (1798-1857) que rompe com esse observacionalismo de Bacon.
Bacon em relação a verdade, acreditava que a mesma pode ser descoberta através de duas vias de investigação:
“[...]Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade.[...]. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém ainda não instaurado.”
5
Ainda a modernidade, Descartes (1596-1650) acreditava que a verdade poderia ser conhecida através do que nos parece menos evidente e ele crê que algumas verdades podem ser conhecidas, ele não vê como certo aquilo que é adequado a idéia e o que está exterior a ele, porque o conhecimento para Descartes vai além de adequações, mas através daquilo que geramos em nós mesmo, como o pensamento ordenado, afastando-se de crenças que nos são apresentadas de geração após geração.
Descartes nos apresenta no seu livro “O Discurso do Método”, regras para possibilitar o conhecimento da verdade. São elas: Regra da evidência; Regra da análise; Regra da síntese; Regra da revisão.
Os métodos estabelecidos por Descartes, estabelecem grande influência para filósofos como Hüme (1711-1776) com certa tendência para o ceticismo onde usa do princípio da causalidade (se tenho A e esse A virá A, na próxima vez posso afirmar que A se tornará A ?) e também por Locke (1632-1704) que em seu livro “Ensaio Sobre o Entendimento Humano” nega o que se pode denominar como idéias inatas.
Como já havíamos citado acima, o filósofo Augusto Comte( 1798-1857), também conhecido como pai do positivismo e “sistematizador da sociologia”
6, apresenta uma metodologia onde não coloca o observacionismo como principal método para fundamentar uma tese. Comte, abre caminhos de forma diferencial, onde ele diz que apenas observações não podem alicerçar uma ciência, e que a teoria, é sim o que pode levar a um conhecimento dos fatos. Ele acredita que é preciso um tipo de conhecimento teórico para apreender o que se observa.
Koudela et al. (2002) é necessário o conhecimento de alguma teoria para que seja possível o conhecimento dos fatos.
Comte, não elimina totalmente a atividade observacional, mas acredita que é necessário, a ligação entre teoria e fatos, para que seja o possível entendimento do resultado observado, o que deve ficar claro é que Comte dá um certo destaque a teoria, que por sua vez, vai orientar as observações. Cita KOUDELA. “[...] Em suma, não podemos realizar observações sem uma teoria qualquer assim como não há teoria positiva sem observações.”
7
Comte não transpõe totalmente o método de Francis Bacon, ele apenas abre as portas para uma nova abordagem de teorização, de cientificidade, ele muda o pensamento em relação as os fatos como princípio para chegar a um ponto desejado, quem supera o modelo de Bacon, é Karl Popper, o qual falaremos mais adiante.
Podemos dizer que Comte, destacava a teoria frente aos fatos por três funções em que ele acreditava serem essenciais:
“[...] é ela que os identifica, estabelece conexões entre as observações que deles fazemos, e deduz conseqüências delas. Segundo ele, a mera observação não gera ciência, pois os fatos são os componentes indispensáveis, porem meros materiais, cabendo à teoria a sua recodificação. Ele chega a firmar, enfim, que a experiência é o critério do conhecimento, mas não basta fechar-se nela.”
8
Para Taylor et al. (2000) essa mudança nos séculos XVII e XVIII faz ligação com à moderna epistemologia representacional. Mas os quatro pensadores que o autor acredita que ofereceram novas concepções do conhecimento foram Hegel, Heidegger, Merleau – Ponty e Wittgenstein por que mesmo com grandes diferenças eles argumentam a partir de condições transcendentais que tem origem em Kant.
É no século XVIII, a teoria da linguagem não se predispõe falar somente do indivíduo mas também da própria linguagem do indivíduo, é deixar um pouco de lado essa teoria que se preocupa em falar somente sobre o objeto e sua definição, mas também procurar estudar a própria linguagem.
Kant (1724-1804) e Heidegger (1889-1976) nos apresentam uma direção certa para cada questão e é isso que faz com que a teoria tenha uma base diferente a cada situação, pois através de nós mesmos podemos definir algo dependendo da maneira que somos receptivos a ela, depende do conhecimento que temos para concluirmos algo. Enquanto Nietzsche (1844-1900) apresenta a relatividade de “regimes de verdade“.
9
Heidegger apresenta a verdade, como a “verdade situada”
10, uma verdade que está ligada com a linguagem contingente, que marca o ser conforme a sua história (relativo), mostrando que a verdade pode ser condicional em relação a sua história e a circunstâncias em que se encontra o indivíduo, depende de suas experiências. Husserl apresenta uma forma de pensar diferente de Heidegger se tratando de relativismo que a seguir trataremos.
Não podemos esquecer que verdade para Heidegger é a conformidade entre o que é dito e a coisa de que está se falando. Logo o conhecimento adequa-se a coisa e a coisa adequa-se a idéia que está ligada ao conhecimento. Mas a não-verdade é que leva ao encontro da essência do ente.
“O que antes é realçado na hermenêutica, é que aqui o relativismo histórico transcorre no relativismo lingüistico, e um exige do outro.[...] a verdade é relativa num certo tempo, numa certa época, com o assunto: existem muitas verdade, muitos modos [...] possíveis de dizer e interpretar um certo fato ou evento.”
11
Podemos dizer então que através desse conhecimento, o fundamento para nossas teorias depende de uma vivência.
Husserl (1859-1938), como já havíamos dito antes, pensa de forma diferente em relação a verdade quando se trata em defini-la como relativa, o que nos diz o trecho “[...] Husserl avança uma hipótese de relançamento do estilo filosófico cartesiano, sublinhando que no “mundo da vida”, no qual se radica a fenomenologia, o relativismo não tem lugar para existir.”
12
Wittgenstein (1889-1951) começa a discutir sobre verdade lógica
13 e verdade de fato14
Rudolf Carnap (1891-1970), foi pioneiro no que se poderia denominar dentro de um movimento filosófico como Empirismo lógico
15, o que afastou do indutivismo Baconiano, preocupando-se com as justificações na teoria científica. Diz Koudela: “A relação entre teoria e observação é aqui entendida como a relação entre proposições cientificas ou hipóteses e proposições protocolares ou basilares.”16
Mas Karl Popper (1902-1992), ousa de afirma que assim como Comte, uma observação só se torna clara se estiver fundamentada pela teoria, pois o conhecimentos se dá através de hipóteses, o que automaticamente rompe com o indutivismo genético (o empirismo clássico) sustentado por Francis Bacon. Diz Koudela, que Popper faz o rompimento definitivo em relação ao contexto de formação das teorias, mas não definitivo em relação ao contexto de justificação.
Toda a esquematização de Popper tem como meta a escolha das melhores teorias, não como uma teoria que se possa defini-la como a teoria que traz a verdade, mas sim a teoria “com maior capacidade explicativa e de maior conteúdo de verdade”
17. E por fim vemos colocado por Popper à possibilidade da separação entre teoria e fatos.
Após observarmos as teorias de alguns filósofos que trataram sobre fato, teoria e verdade, podemos chegar a conclusão de que apesar de vários argumentos uns confirmando o que o outro havia dito, outros argumentos dizendo que dessa forma não poderia ser entendido, vemos que todos tem a preocupação com uma só coisa - a verdade.
Embora alguns filósofos tenham questionado sobre a existência da verdade, percebemos automaticamente que esse tipo de argumentação parece que está entrando em contradição com aquilo que tentam buscar, por que a partir do momento que alguém coloca alguma coisa, define, exprime e quer que essa coisa seja entendida e que os outros a tenham como algo de fato, então talvez ele queira que sua teoria seja uma verdade, por que senão qualquer teoria poderia ser aceita, ela sendo correta ou não, afinal não se estaria buscando nada e não precisaria dizer nada.
Já em relação aos fatos, ele apresenta uma forma de relação com a verdade que se apresenta de uma forma muito interessante. Quando perguntamos o que é verdade? Logo recebemos a resposta: é o que os fatos apresentam. Mas que fatos? Os fatos que se adequam a sociedade e ao que a mesma esta passando, historicamente, culturalmente. Aqui podemos dizer que a verdade é relativa, mas ela não depende dos fatos se ela é relativa.
O que podemos dizer então da teoria de sua importância em relação aos fatos e verdades?
Podemos dizer que a teoria se apresenta com mais grau de importância, pois a verdade precisa ser dita, porque ela foi questionada, e questionar é teorizar. Os fatos seguem pela mesma lógica, por que eles podem estar ali, mas para serem definidos como fatos, é necessário que haja uma teorização dos mesmos, é necessário que “eu” tenha conhecimento sobre o contexto histórico passado e sobre o meu próprio contexto atual e o que me dará suporte para essa ligação de passado e presente, é a teoria. Quando falo de fato, falo de linguagem, quando falo de linguagem falo de teoria. No momento que estou observando, estou teorizando e fazendo ligação com o conhecimento teórico que possuo.
O que se pode concluir, é que não se pode concluir, embora pareça contraditório, mas na filosofia alguns princípios (se não a maioria) não se pode dar como concluído, somente se pode fazer um questionamento para novas teorias.
BlBLIOGRAFIA:
AGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais. Ed. Unisinos.2002
ARTIGOS, Descartes. 10 em Tudo. . Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2006.
KOUDELA, Marcelllo Souza Costa Neves; Fatos e teorias: do observacionalismo ao teoriticismo em filosofia da ciência (revista reflexão nº 81/82 p 59-73 jan/dez 2002.
TAYLOR, Charles. Argumentos filosóficos. São Paulo. Ed. Loyola. 2000.
1 (LUFT, 1991, p.290)2 (LUFT, 1991, p.596)3 (LUFT, 1991, p.629)5 “(Bacon, 1973, p.22)”. Citado por KOUDELA, Marcello Souza Costa Neves; Fatos e Teorias: do observacionismo ao teoricismo em filosofia da ciência, p.61.6 Revista Nova Escola. Grandes Pensadores. 2006.Vol.2.p.407 “(Comte, 1929, Vol. IV, p.141)”. Citado por KOUDELA, Marcello Souza Costa Neves; Fatos e Teorias: do observacionismo ao teoricismo em filosofia da ciência, p.63.8 KOUDELA, Marcello Souza Costa Neves; Fatos e Teorias: do observacionismo ao teoricismo em filosofia da ciência, p.63.9 (TAYLOR, 2000,p.30)10 “no sentido de que é verdade de uma situação - colocação”. AGOSTINI AGOSTINI, D’ Franca. Três formas de relativismo.P.239.11 AGOSTINI AGOSTINI, D’ Franca. Três formas de relativismo.P.240.12 AGOSTINI, D’ Franca. Analíticos e continentais. Ed. Unisinos.2002. p24513 “fundas sobre uma estrutura lógica da linguagem, universlamente v’lida, ou sobre o significado das palavras”. AGOSTINI AGOSTINI, D’ Franca. Três formas de relativismo.P.244.14 “experiência impírica”. AGOSTINI AGOSTINI, D’ Franca. Três formas de relativismo.P.245.15 Ainda também conhecido como Neopositivismo16 KOUDELA, Marcello Souza Costa Neves; Fatos e Teorias: do observacionismo ao teoricismo em filosofia da ciência, p.64.17 KOUDELA, Marcello Souza Costa Neves; Fatos e Teorias: do observacionismo ao teoricismo em filosofia da ciência, p.68.
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